‘Procissão das Almas’ revive duas lendas marianenses na Sexta-feira da Paixão

A tradição teve início há cerca de 30 anos e foi baseada na lenda de "Dona Maricota" e a “Barata da Igreja”.

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Por João Paulo Silva Publicado em 20/04/2019, 17:48 - Atualizado em 04/07/2019, 23:06

Foto-Procissão das Almas é destaque na Sexta-feira da Paixão em Mariana
Crédito-Ane Souz

Enquanto Ouro Preto revivia a Procissão do Fogaréu, tradição, que fazia parte das celebrações religiosas da Semana Santa no século 18 e não acontecia há mais de 100 anos, a poucos quilômetros, na também histórica Mariana, cultura e tradição tomaram conta das centenárias ruas da primeira capital de Minas. Vestindo longas túnicas brancas, munidos de velas, ossos e correntes, ao som da marcha fúnebre, dezenas de marianenses e turistas participaram da Procissão das Almas na madrugada da Sexta-feira da Paixão.

Um grupo de músicos da Banda União XV de Novembro acompanhou o cortejo tocando a marcha fúnebre “Um Lamento”, de Aníbal Walter, contracenando com as vozes das almas, matracas, lamentos e preces.

Organizada pelo Movimento Renovador de Mariana e pela Casa de Cultura & Academia Marianense de Letras, a tradição se mantém viva há mais de 30 anos, de acordo com informações da prefeitura municipal. O cortejo que remonta duas lendas locais tem como objetivo contribuir para a preservação do patrimônio material e imaterial da Mariana. “A procissão é parte da memória marianense, é importante para as pessoas conhecerem a história da nossa cidade, contada pelo povo. É uma forma de educação popular”, explica a integrante do movimento e uma das coordenadoras da Procissão das Almas, a professora emérita da Universidade Federal de Ouro Preto, Hebe Rola.

Maricota, a vigilante noturna

Ainda de acordo com a Prefeitura Municipal de Mariana, existem duas lendas que justificam a Procissão das Almas. A primeira lenda é de uma senhora chamada Maricota que passava seus dias na janela, fiscalizando a vida alheia. Como já estava com má fama devido ao seu comportamento, decidiu mudar de bairro e também alterou seus hábitos. Ao invés de ficar na janela durante o dia, Maricota passou a ser vigilante noturna.

Uma noite de Sexta-Feira Santa, viu uma procissão se aproximar, mas as pessoas escondiam o rosto dentro do capuz. Ela ouvia lamúrias, som de bumbo, correntes arrastando e uma canção: “Reza mais, reza mais, reza mais uma oração; reza mais, reza mais, para a alma que morreu sem confissão”.

Como ela não conseguia identificar quem estava ali, começou a ficar intrigada sobre o cortejo que até então desconhecia. De repente, um dos integrantes veio em sua direção dizendo que a noite é dos mortos e pediu para que ela guardasse a sua vela que mais tarde voltaria para buscar. Quando a procissão voltou, a mesma figura novamente lhe procurou. Ela então foi buscar a vela, que surpreendentemente havia se transformado em um osso de perna de defunto. Maricota, então, morreu de susto e passou a integrar anualmente a procissão dos mortos.

“A barata da igreja”

A segunda lenda remete a uma senhora classificada como “barata de igreja” que é, na linguagem local, a mulher que está sempre bajulando o padre. Com a contratação de uma jovem moça para ajudar nas escrituras da paróquia, essa senhora fica muito enciumada. Ela, então, começou a espalhar o boato de que a nova funcionária era namorada do padre. Com o escândalo, a jovem perdeu o noivo, foi expulsa de casa pelos pais e virou andarilha. Um dia, ela retornou bem maltrapilha e bateu à porta de uma casa solicitando água.

Enquanto a moradora atendia ao seu pedido, a moça caiu morta. O enterro foi organizado e toda a cidade, curiosa, compareceu para ver a falecida. Quando a “barata de igreja” chegou, o defunto sentou no caixão e disse “está aqui quem me caluniou”. Assustada, a mulher saiu correndo e decidiu que era hora de confessar seus pecados e pedir perdão ao padre.

Como castigo, ficou incumbida de juntar, em balaios, todas as penas das aves mortas na região. Feito isso, deveria levá-las ao alto de um morro e, de lá, soltá-las ao vento para, em seguida, começar novamente todo o processo. Assim foi até sua morte que veio sem que ela terminasse de recolher todas as penas espalhadas. Conta a lenda que ela continua juntando. (O texto sobre as lendas foi retirado do site oficial da Prefeitura Municipal de Mariana).

Exposição fotográfica

Segue em cartaz, até o dia 03 de maio, na Casa de Cultura de Mariana, a exposição fotográfica “Procissão Miserere”, do fotógrafo ouro-pretano Ailton Fernandes. As imagens que compõem a mostra foram produzidas por meio da técnica de múltipla exposição. O fotógrafo explica que efeito era muito utilizado em câmeras analógicas. A técnica consiste em sobrepor duas ou mais imagens no mesmo frame (quadro) ou fotograma. “Em resumo, são duas ou mais fotos mescladas em uma só”.

A exposição “Procissão Miserere” é uma realização do Movimento Renovador de Mariana – Casa de Cultura, Academia Marianense de Letras, com apoio do Projeto Floresça Mariana – “Uma flor em cada janela, um livro em cada mão” (PROEX/UFOP) e do Museu Casa Alphonsus de Guimaraens.

Telefone para agendamento de visitas e informações: (31) 3557 32 59

Confira abaixo as imagens da procissão, todas de autoria da fotógrafa Ane Souz.

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