Quem é Cláudio Jorge, ganhador do Grammy de ‘Melhor Disco de Samba’ em 2020?

O músico venceu a disputa com ninguém menos do que Maria Bethânia, Martinho da Vila, Zeca Pagodinho e Moacyr Luz.

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Por JornalVozAtiva.com Publicado em 26/11/2020, 13:40 - Atualizado em 26/11/2020, 13:42
Foto – Reprodução. Crédito – Januário Garcia. Siga no Google News

Na recente cerimônia de entrega do Grammy Latino, o vencedor de Melhor Disco de Samba pode até ter sido uma surpresa para o grande público, mas não para os artistas e profissionais da área. Celebrando 70 anos de vida e 50 de carreira, o músico Cláudio Jorge (com o disco Samba Jazz, de raiz) venceu um time de ídolos formado por Maria Bethânia (Mangueira, a menina dos meus olhos), Martinho da Vila (Martinho 8.0 – Bandeira da fé: um concerto), Zeca Pagodinho (Mais feliz) e Moacyr Luz com Samba do Trabalhador (Fazenda samba).

Assim como o jazz, com suas raízes populares e africanas, cheio de síncopes e improvisações, para Cláudio Jorge o samba tem a mesma origem, a mesma força universal, capaz de tocar qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo. “Os pretos que fundaram o samba são os pretos que fundaram o jazz, expressões de negros africanos na diáspora. Se o Brasil fosse uma potência, a música americana é que sofreria influências do nosso samba”, afirma. “O samba vai para onde ele quiser ir, tem vida própria porque está muito além de ser apenas um ritmo. O samba é trilha sonora de um estilo de vida. Por isso é eterno, pois é o dia a dia de muita gente, é um potente lugar de fala”.

Músico brasileiro nascido no Rio de Janeiro, Cláudio Jorge iniciou como violonista de gente como Ismael Silva e Cartola e, logo depois, Nelson Cavaquinho, Clementina de Jesus, Simone, Renato Russo, Ney Matogrosso, Leny Andrade, Alcione, Leila Pinheiro, Fátima Guedes, João Donato, Lecy Brandão, Beth Carvalho, Ivan Lins, Fundo de Quintal, João Nogueira e Martinho da Vila, com quem se apresenta até hoje.

Antes de vencer com o disco Samba Jazz, de raiz, que tem como convidados especiais Fatima Guedes, Ivan Lins, Mauro Diniz e Frejat, Cláudio Jorge já havia sido indicado ao Grammy Latino de Melhor Disco de Samba, em 2002, com Coisa de Chefe. Suas composições já foram gravadas por astros como Emílio Santiago, Ângela Maria, Zeca Pagodinho, Elza Soares, Zezé Mota, Jorge Aragão, Sivuca, Sérgio Mendes, Diana Warwick, Lisa Ono e, claro, Martinho da Vila, entre muitos outros. Entre seus parceiros de composição, muitos ídolos como Cartola, João Nogueira, Aldir Blanc e Arlindo Cruz.

Samba Jazz, de raiz. Cláudio Jorge 70
Leia trechos da apresentação escrita por Hugo Sukman

(…) trata-se de um disco autoral, de canções, mas inspirado no universo dos conjuntos instrumentais dos anos 60, originários de bailes, estúdios e gafieiras, que misturavam samba e procedimentos do jazz, com possíveis arranjos e saxofones do Meirelles, o baixo do Luizão Maia, o piano e o conjunto do Dom Salvador, Edison Machado ou Wilson das Neves na bateria.

(…) talvez seu trabalho mais rigorosamente conceitual, sem, contudo, perder jamais a delicadeza e a individualidade de cada canção, aliás, um lote de 13 canções inéditas e duas regravações. Se no primeiro LP, lançado pelo Odeon em 1980, o jovem violonista flertava com o ecletismo da MPB então vigente que ia de uma nítida influência do Clube da Esquina (“Dia da criação”, por exemplo) a um samba de sucesso em parceria com João Nogueira (“Pimenta no vatapá”) e uma valsa (sim, uma valsa!) com Cartola (“Fundo de quintal”), na obra-prima “Coisa de chefe” (Carioca Discos, 2001) o já consagrado compositor apresenta um tratado sobre o samba, inclusive o samba jazz (no tema instrumental “Samba pro Luizão Maia”). E em “Amigo de fé” (Carioca Discos, 2010), disco sereno de sua maturidade artística, aborda a influência do candomblé, sua religião, no samba e na música brasileira em geral.

Neste “Samba jazz de raiz”, e por favor com jogo de palavras, Cláudio Jorge radicaliza, vai mesmo à raiz do subgênero esquecido e muitas vezes mal compreendido – o próprio Vinicius de Moraes, sempre tão atento, dessa vez classificou-o como um “híbrido espúrio, nem samba nem jazz” – e à raiz da sua própria formação musical. Nascido no subúrbio carioca nos melhores dias, criado no Cachambi tão perto daquele Méier epicentro dos bailes de clubes nos anos 50, 60 e 70, Cláudio Jorge foi embalado pelos conjuntos dançantes daquela época, justamente na fase em que aprendeu sozinho o instrumento no qual hoje é um mestre. Não por acaso, debutou no conjunto de seu futuro parceiro João Nogueira, também do Méier, que no início da década de 70 inovou ao incluir baixo e bateria no acompanhamento do samba, herança direta dos bailes e do samba jazz na raiz. Sua relação com o samba jazz é assim tão íntima, que Cláudio Jorge escolheu esse tipo de som e esse conceito para o disco que também comemora os seus 70 anos de idade.

Hoje, consagrado como cantor, compositor e violonista (do conjunto de Martinho da Vila e das gravações de samba que se prezem), e em sua carreira com passagens pelos conjuntos de Sivuca, de Luizão Maia e do Batacotô é possível ver no estilo de Cláudio Jorge traços inconfundíveis de samba jazz. Neste “Samba jazz de raiz” isso fica evidente em cada detalhe. (…)

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