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Em Palavras de Vida e Esperança “O Desafio do Diálogo” com Padre Edmar

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Por Pe. Edmar José da Silva Publicado em 04/04/2021, 12:01 - Atualizado em 04/04/2021, 12:17
Foto – Padre Edmar José da Silva / Crédito – Ane Souz Siga no Google News

Padre Edmar José da Silva é Pároco da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição em Ouro Preto-MG

A palavra “diálogo” é junção de dois vocábulos gregos: “diá” que, dentre tantos sentidos, pode significar “por intermédio de” e “logos” que, dentre tantos significados, pode ser traduzido por “palavra”. Portanto, diálogo tem tudo a ver com relação humana, com o modo do ser humano se colocar diante do outro humano e estabelecer conexão e promover encontro por intermédio da palavra. Somente o ser humano é capaz de dialogar, porque somente ele é capaz de usar a palavra como expressão do seu pensamento e da sua capacidade de ver e julgar a realidade que o rodeia.

Dialogar não é fácil porque é mais do que conversar: “O diálogo se inicia, sem dúvida, pelo ato de conversar, pois, se nem ao menos nos dirigimos às outras pessoas, se não as escutamos nem compartilhamos com elas um pouco do que pensamos e sentimos, não daremos o passo para o verdadeiro diálogo” (Revista Vida pastoral, nº 337, ano 62, p. 26). Dialogar é acolher, é escutar fraternalmente, é partilhar a vida, é abrir-se ao outro com o desejo de aprender com ele. Tudo isso pode começar com uma boa conversa, mas vai além: “Conversamos sobre coisas. Dialogamos sobre nós e sobre o sentido da vida. Conversamos, por exemplo, sobre as contas a pagar, rumos de uma série televisiva ou o sistema de transporte que não atende às necessidades. Dialogamos, porém, sobre sonhos, esperanças, compreensões, expectativas, frustrações, tristezas e alegrias. Conversa pode ser o instrumento. Diálogo, porém, é a finalidade.”  (Revista Vida pastoral, nº 337, ano 62, p. 27).

No sentido acima apresentado, diálogo tem tudo a ver com cuidado. O cuidado com o outro não passa apenas pela satisfação de suas necessidades físicas e materiais, mas também pela capacidade de encontrá-lo, escutá-lo respeitosamente, mergulhar no seu horizonte existencial e dispor-se a aprender com ele, com seu modo de ser e agir, ainda que não concorde plenamente com suas ideias e sua visão de mundo. Diálogo não é retórica, não é arte de persuasão, não é discurso apologético, não é competição linguística ou doutrinação. Diálogo tem a ver com partilha respeitosa de vida, de crenças, de sentimentos e de sonhos.

Para haver diálogo deve- se ter clareza da própria identidade. Diálogo não é busca de homogeneidade, mas é encontro de identidades diversas com possibilidade de unidade naquilo que é comum, apesar da divergência respeitosa naquilo que é diferente. A riqueza está exatamente na diversidade de identidade e na possibilidade de enriquecimento mútuo na diferença. Diálogo entre iguais seria muito pouco frutuoso e nem sei se poderia ser considerado, na sua essência, verdadeiro diálogo.

Infelizmente, o que presenciamos no contexto atual é o crescimento exponencial da intolerância que revela a absoluta falta de diálogo e a recusa violenta ao diferente. A intolerância se alimenta do fanatismo, do fundamentalismo e do populismo diante de uma determinada convicção cega: “Pessoas e grupos se agarram às suas concepções de um modo reativo, até mesmo bélico e, consequentemente, não dialogal. O diferente, o outro e a outra, que, na verdade, são irmãos e irmãs, passam a ser vistos como inimigos a combater. Neste sentido, a ausência de diálogo é uma ameaça à vida” (Revista Vida pastoral, nº 337, ano 62, p. 28).  As redes sociais, com todo o seu potencial, têm alimentado múltiplas posturas agressivas de intolerância, fomentado polarizações e tornado meio de difusão de posturas agressivas e antidialogais.  

A intolerância é a tragédia do não- diálogo, é a rejeição ao não- eu, é o desprezo e o desrespeito ao não igual. O intolerante é altamente narcisista e acha feio o que não reverbera as suas próprias convicções e sua postura de vida. Isso nos faz recordar dos versos de uma canção de Caetano Veloso e Gilberto Gil: “quando te encarei frente a frente não vi o meu rosto/chamei de mau gosto o que vi, mau gosto, mau gosto/ é que narciso acha feio o que não é espelho”. Além disso, o intolerante é prepotente, orgulhoso e dogmático, porque se sente dono da verdade e se considera defensor e promotor de valores e ideias que, a seu ver, são os melhores e únicos para a sociedade. Não dá espaço para o diferente e o contraditório. Quem pensa diferente ou age diversamente ao que pensa e vive é ‘encarado’ como potencial inimigo que deve ser fortemente combatido e, se possível, eliminado.

O Papa Francisco afirma que dialogar é derrubar muros e construir pontes e conexões entre perspectivas diferentes e até opostas. Diante deste contexto desafiador da intolerância, o diálogo adquire não somente um valor discursivo, mas uma forte tonalidade ética. Ele se torna uma virtude pessoal e social extremamente necessária para a harmonia e a convivência entre os humanos. Diante disso, acreditamos que a postura dialogal deve ser vivida, defendida, propagada e incentivada por todos os que acreditam na diferença como caminho de crescimento.

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