“O moço que se comunicava em Gestuno”, por Márcio Messias Belém

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Por Márcio Messias Belém Publicado em 27/09/2021, 14:07 - Atualizado em 27/09/2021, 14:07
Inclusão
Foto – Márcio Messias Belém. Crédito – Arquivo pessoal. Siga no Google News

O moço se comunicava em Gestuno. Não havia uma viva alma por ali que soubesse se comunicar com ele. Faltava paciência nas pessoas em aprender, e de mais a mais, que retorno financeiro aquelas gentes teriam, caso aprendessem?

Tempos melancólicos esses em que as pessoas só pensam no retorno do vil metal.

Tanta coisa a fim de ser dita diante de tanto desinteresse em ouvir.

Temendo enlouquecer de vez, por culpa do silêncio social imposto pelos “normais”, o moço que se comunicava em Gestuno passou a dizer as coisas para si mesmo. Foi um grande ouvidor de suas próprias histórias; as mesmas que ninguém nunca se interessou em escutar.

Ria com elas.

Chorava.

Criava.

Recriava.

Gesticulava de tal forma que parecia dar cambalhotas pelos ares, por tanta ansiedade acumulada.

Até o dia em que “os normais” disseram – está louco; prenda-o e jogue-o no hospício – e assim o fizeram: prenderam-no e o jogaram lá, para o silenciarem de uma vez por todas.

Seu Lucrécio, tempos depois, disse-me que ele morreu assim, à mingua, emudecido pelos efeitos dos remédios “tarjas pretas”

Eu prefiro a versão de Dona Dodô, que diz que um anjo menino veio sorrateiramente de madrugada, enquanto todos ainda dormiam; abriu o portão do hospício, o pegou pela mão e o arrebatou para o céu – onde está até hoje, conversando com Deus em Gestuno.

Sobre o autor

Após um breve hiato em sua produção para o JVA, Márcio Messias Belém está de volta falando de dignidade, respeito e inclusão para as pessoas com deficiência. Filho de pais surdos, o filósofo carioca se utiliza da crônica, do conto e mesmo da prosa para tratar de forma delicada e ao mesmo tempo descontraída de um tema que deveria ser mais discutido na sociedade.

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