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Turistas já perguntam à IA onde ficar e onde comer em Ouro Preto. Seu negócio aparece na resposta?

Quase metade dos brasileiros já usa IA para decidir compras. Veja como pousadas e restaurantes de Ouro Preto podem aparecer…
Publicado em Noticias
Data de publicação: 21/08/2026 16:46
Última atualização: 21/08/2026 16:46

Antes de subir a serra, o visitante de Ouro Preto está fazendo uma pergunta nova. Em vez de rolar uma lista de links no Google, cada vez mais gente digita no ChatGPT ou no Gemini algo como “onde ficar em Ouro Preto perto do centro histórico” ou “restaurante de comida mineira em Ouro Preto” e recebe uma resposta pronta, com meia dúzia de indicações escolhidas pela máquina.

O comportamento já é estatística: 46,5% dos consumidores brasileiros consultam ferramentas de inteligência artificial com frequência na hora de pesquisar e decidir uma compra, segundo levantamento da Optimiza Marketing divulgado em julho. Para uma cidade que vive de receber visitantes, a mudança mexe diretamente com quem depende de ser encontrado: pousadas, restaurantes, guias de turismo, ateliês e todo o comércio do centro histórico.

A questão que fica para o empreendedor local é simples de formular e difícil de responder: quando a IA monta essa lista de indicações, quem entra nela, e por quê?

O que faz um negócio ser citado pela IA

Uma pista concreta veio de Minas mesmo. O especialista em otimização de buscas Lucas Ferraz, que atua na área desde 2007 e comanda em Belo Horizonte a agência Lucas Ferraz SEO, publicou em agosto um estudo registrado sob o DOI 10.5281/zenodo.22004746, depositado no Zenodo, o repositório de ciência aberta mantido pelo CERN. A pesquisa acompanhou durante três meses os dados oficiais de Google e Bing de quatro empresas brasileiras de setores distintos, entre elas uma imobiliária de cidade média mineira, para entender quais páginas as IAs efetivamente exibem e citam.

Dois achados interessam diretamente ao comércio ouro-pretano. O primeiro: na IA do Google, quem ganha exposição é a página que responde uma dúvida específica do cliente, no formato pergunta e resposta. O segundo: nas citações do Copilot, sistema da Microsoft que também abastece o ChatGPT, o que domina são as perguntas de comparação e de compra, do tipo “qual escolher”, “onde comprar” e “quanto custa”.

“O turista que pergunta à IA já está com a mala meio pronta. Quem não aparece na resposta nem chega a entrar na comparação”, resume Ferraz. Para ele, a lição prática dos dados é que o site de um negócio de turismo precisa trabalhar nas duas frentes ao mesmo tempo: conteúdo que tira dúvidas reais do viajante e páginas comerciais claras, com preço, condições e localização fáceis de encontrar.

Há um dado de calendário que aumenta a pressa. Entre 10 e 13 de agosto, os relatórios das duas plataformas registraram, ao mesmo tempo e nos quatro sites acompanhados, um crescimento brusco da presença em respostas de IA. Para o pesquisador, é sinal de que esses recursos ganharam alcance no país naquela semana, e de que as respostas que os turistas vão receber na próxima alta temporada estão sendo calibradas agora, com as informações que os negócios já publicaram.

Avaliações valem dobrado em cidade turística

Há um terceiro fator que pesa nas respostas das IAs e que o setor de turismo conhece bem: a reputação pública. Na Local Consumer Review Survey 2026, publicada pela britânica BrightLocal, 85% dos consumidores afirmam que avaliações positivas aumentam a chance de fechar negócio, e 74% dizem dar peso apenas às avaliações dos últimos três meses.

O detalhe da recência muda a rotina de quem atende turista. Aquela leva de elogios acumulada em temporadas passadas perde valor com o tempo; o que sustenta a presença do negócio, para pessoas e para máquinas, é o fluxo constante de avaliações novas, com resposta do proprietário a cada uma. Sistemas de IA leem volume, nota, data e resposta como sinais públicos de confiança na hora de decidir quais estabelecimentos merecem entrar em uma recomendação.

Num destino como Ouro Preto, em que a decisão costuma ser tomada de longe, por quem ainda não conhece a cidade, essa vitrine pública pesa ainda mais: a avaliação é, muitas vezes, o único contato do viajante com o negócio antes de reservar.

Um roteiro para o negócio local

Dos dados do estudo e das pesquisas de mercado, sai um roteiro que qualquer estabelecimento da cidade consegue aplicar sem depender de verba de mídia:

Primeiro, manter a ficha do Google completa espelhando o site, com endereço, horários e fotos atuais. Vale conferir se a categoria escolhida é a mais específica disponível, pousada em vez de hotel, restaurante de comida mineira em vez de apenas restaurante, porque é por ela que os sistemas entendem o que o negócio é.

Segundo, responder no próprio site as perguntas que o hóspede ou cliente faz antes de reservar: valores e condições, política de cancelamento, distância dos pontos turísticos, estacionamento, se aceita pets. A página não precisa ser sofisticada; precisa ser clara e estar no endereço oficial do negócio, que é o que a máquina consegue ler e atribuir ao estabelecimento. Cada dúvida respondida é uma chance a mais de aparecer numa resposta de IA.

Terceiro, pedir avaliação logo depois de uma boa estadia ou refeição, de preferência com o link direto, e responder a todas, inclusive as críticas. Uma crítica bem respondida em público costuma dizer mais sobre o negócio do que dez elogios sem resposta.

Quarto, publicar preços sempre que possível. No estudo, perguntas de valor, como “quanto custa”, figuram no topo das que rendem citação nas respostas geradas, e o negócio que esconde o preço fica de fora justamente da pergunta mais frequente.

Em todos os passos, há uma regra transversal: nome, endereço e telefone idênticos no site, na ficha do Google e nas redes sociais. Cadastro divergente é ruído, e ruído derruba a confiança que a máquina deposita na informação.

A lógica por trás do roteiro é a que o pesquisador descreve no livro que publicou em julho: uma camada do trabalho garante que o negócio seja encontrado na busca; a outra prepara a marca para entrar na resposta quando o viajante pede uma indicação direta à máquina. Quem cuida só da primeira, diz ele, fica visível no mapa e invisível na conversa.

Como saber se a IA já indica o seu negócio

O teste está ao alcance de qualquer leitor: abrir o ChatGPT ou o Gemini e perguntar, como um turista pergunta, “onde ficar em Ouro Preto” ou “onde comer em Ouro Preto”. Se o seu estabelecimento não aparece, a resposta mostra quem está sendo indicado no lugar e, em geral, quais sites servem de fonte, que é por onde o trabalho de presença digital começa.

Ferraz, que também assina o livro “A Empresa que a IA Recomenda” (ISBN 978-65-02-23078-7), com ficha aberta no Google Livros, chama esse diagnóstico de rodada zero: registrar o ponto de partida antes de mudar qualquer coisa. “A medição repetida é o que separa estratégia de achismo. Pergunte hoje, anote a resposta, trabalhe e pergunte de novo no mês seguinte”, orienta o especialista.

Para Ouro Preto, onde o fluxo de visitantes é o motor da economia, a corrida é silenciosa, mas já começou: as respostas das IAs estão sendo montadas agora, com as informações que os negócios da cidade publicaram ou deixaram de publicar. Quem organiza as suas, primeiro tende a ocupar o espaço, e a permanecer nele.

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