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Debate sobre cotas trans na UFMG é marcado por denúncias de intimidação e questionamentos sobre uso de dados

Discussão ganhou novos desdobramentos após a sessão do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe).
Publicado em Noticias
Data de publicação: 03/03/2026 14:18
Última atualização: 03/03/2026 14:20
Monumento ao Aleijadinho, tendo ao fundo o prédio da Reitoria. Crédito — Foca Lisboa | UFMG.
Monumento ao Aleijadinho, tendo ao fundo o prédio da Reitoria. Crédito — Foca Lisboa | UFMG.

A discussão sobre a proposta de reserva de vagas para pessoas trans na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) ganhou novos desdobramentos após a sessão do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe), realizada em 26 de fevereiro.

Em nota oficial, a reitora Sandra Goulart Almeida e o vice-reitor Alessandro Fernandes Moreira repudiaram as ofensas sofridas por conselheiros após a reunião, afirmando que a universidade “não pode jamais se tornar espaço da incivilidade e da barbárie”. Segundo o comunicado, integrantes do conselho teriam sido perseguidos e assediados por manifestantes ao término da sessão, no campus Pampulha.

O episódio ocorre em meio à tramitação de proposta que institui reserva de vagas para pessoas trans na instituição, além da aprovação de cotas na pós-graduação.

Professores denunciam ambiente de pressão e intimidação

Em carta encaminhada à reitoria, um grupo de professores e técnicos-administrativos da UFMG manifestou “grande preocupação com o ambiente” em que a proposta vem sendo debatida. Segundo o documento, as manifestações ocorridas após a reunião configurariam um cenário “incompatível com a serenidade e a liberdade que devem orientar os processos deliberativos universitários”.

Os autores afirmam que houve “ações violentas” e constrangimento à livre manifestação por parte de manifestantes pró-cotas trans, o que, segundo eles, compromete a qualidade do debate acadêmico e a legitimidade das decisões.

Questionamentos sobre dados e fundamentação

A carta também levanta críticas ao uso de dados que embasam a proposta. De acordo com o grupo, informações do levantamento da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) estariam sendo utilizadas de forma incompleta.

O documento destaca que, embora 0,2% dos estudantes se identifiquem como homens ou mulheres trans, o mesmo levantamento registra 0,6% de pessoas não binárias e 2,6% que declaram outros gêneros, totalizando 3,4% do corpo discente.

Segundo os autores, esses números não indicariam sub-representação desse grupo nas universidades federais, podendo, ao contrário, sugerir presença proporcionalmente superior em relação a estimativas populacionais.

Defesa de debate baseado em evidências

Os professores também criticam a condução do debate, apontando ausência de contraditório e de análise rigorosa de dados. Eles citam documento do Núcleo de Direitos Humanos da UFMG que teria classificado a exigência de dados empíricos como inadequada, “cínica” e “colonial” o que, segundo os signatários, fragiliza os princípios acadêmicos.

Para o grupo, esse cenário pode gerar efeitos negativos na formação dos estudantes, ao priorizar “apelos emocionais, pressão moral e intimidação” em detrimento de evidências e argumentação racional.

Proposta de voto sigiloso

Diante do contexto, os professores defendem a adoção de voto secreto na apreciação da matéria pelo Conselho Universitário. Segundo o documento, a medida seria necessária para proteger a autonomia dos conselheiros diante de um ambiente descrito como de “constrangimento” e “estigmatização da divergência”.

“O que se protege com o voto secreto é a independência do juízo individual e a integridade do processo decisório”, afirmam.

O grupo disponibiliza seus argumentos contra as vagas suplementares em um site público (https://declaracao.wixsite.com/posicaocontra) sem identificação dos autores exatamente em virtude dos ataques e intimidações.

Debate segue em meio a polarização

O episódio evidencia a crescente tensão em torno de políticas de ação afirmativa baseadas em identidade de gênero no ambiente universitário. Enquanto setores defendem a medida como instrumento de inclusão, outros questionam sua base empírica, seus critérios, a isonomia com demais grupos vulneráveis, e os impactos sobre o funcionamento das instituições.

Até o momento, a UFMG não se manifestou sobre os questionamentos apresentados na carta dos professores

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