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David Almeida inaugura nova individual ‘Devagar com o andor que o santo é de barro’ no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto

Exposição inédita reúne pinturas, objetos-oratórios e ex-votos de um acervo local de Ouro Preto, articulando barroco mineiro, crença popular e…
Data de publicação: 02/06/2026 11:55
Última atualização: 02/06/2026 11:55
Arte reprodução. Crédito - Divulgação.
Arte reprodução. Crédito - Divulgação.

No dia 6 de junho, David Almeida inaugura sua nova exposição individual, Devagar com o andor que o santo é de barro, no Museu da Inconfidência, em Ouro Preto. A mostra parte de uma investigação do artista sobre a formação da pintura no Brasil e toma o barroco mineiro, o catolicismo popular e episódios históricos de Vila Rica como ponto de partida para pensar os modos pelos quais imagens são apropriadas, transformadas e reinventadas no país.

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Desenvolvida a partir de viagens recentes por Minas Gerais, a exposição reúne pinturas inéditas em escala ampliada, objetos escultóricos produzidos pelo artista e ex-votos de um acervo local, colocando em relação diferentes temporalidades e modos de construção da imagem. Sem recorrer à ilustração ou à reconstituição histórica, a mostra aproxima pintura, crença e imaginário popular como dimensões de uma mesma experiência cultural.

No centro da exposição está um painel de aproximadamente 60m² que ocupa o forro do espaço expositivo. Construída como uma colagem de imagens, a obra reúne referências históricas, religiosidades não hegemônicas e elementos da paisagem mineira, articulando episódios da história de Ouro Preto às paisagens ermas que atravessavam Vigília, exposição realizada pelo artista em 2024.

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David Almeida, Cálice, 2026. Foto: Cortesia do artista e Almeida & Dale, São Paulo

A composição reúne personagens e acontecimentos da memória popular e política da cidade em aproximações livres e fabulares: Felipe dos Santos surge ascendendo aos céus em referência a São Elias; Chico Rei aparece sobre sua mina, evocando as tradições do congado; já a disputa entre paulistas e forasteiros na Guerra dos Emboabas ganha uma releitura inspirada nas pinturas de Francisco de Goya. Mais do que ilustrar acontecimentos históricos, o trabalho aproxima tempos, crenças e narrativas para pensar as imagens como formas instáveis de transmissão cultural.

Os ex-votos, esculturas e pinturas produzidas como agradecimento por promessas alcançadas, surgem na exposição não apenas como referência temática, mas também como interesse formal do artista. Considerados algumas das primeiras manifestações pictóricas do Brasil, são produções que instauram uma relação distinta daquela da tradição europeia: menos ligada à autoria e à representação do poder, e mais próxima de uma prática popular em que a imagem opera como testemunho, documento e mediação do sagrado. Uma chave para pensar a pintura brasileira como linguagem, cuja autoridade é confirmada pela função; imagens que existem para testemunhar algo vivido, prestar contas do sensível e validar
experiências de fé.

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David Almeida, Concha e morro, 2024-2026 (detalhe). Foto: Cortesia do artista e Almeida & Dale, São Paulo

“A pintura no Brasil nasce de um desejo importado, mas reinventado por outras crenças, geografias e formas de ver. O que me interessa é justamente esse desvio: quando uma imagem chega aqui e deixa de pertencer ao seu lugar de origem para ganhar outra vida. Os ex-votos me interessam porque são uma origem popular da imagem no Brasil — pinturas feitas não como afirmação autoral, mas como prestação de contas do sensível, uma mediação entre crença, experiência e aquilo que não se consegue explicar”, afirma o artista.

Junto das pinturas e dos ex-votos, a mostra apresenta uma nova série de objetos escultóricos descritos pelo artista como oratórios. Os trabalhos, construídos a partir de fragmentos encontrados em antiquários, caçambas e viagens, preservam vestígios de suas funções originais ao mesmo tempo em que deslocam seus significados.

Entre caixas, prensas, madeiras e pequenas estruturas arquitetônicas, os oratórios transitam entre memória, invenção e espiritualidade popular. “Esses objetos mantêm a memória do que foram, mas já não servem à mesma função. Me interessa esse lugar de suspensão, entre aquilo que ainda carrega uma crença e aquilo que já virou outra coisa”, diz David Almeida.

Questões que atravessavam a exposição Vigília reaparecem aqui sob outra escala e densidade. Se antes surgiam de maneira mais fragmentada, agora ganham corpo em uma construção narrativa mais ampla, articulando história, crença e imaginário popular.

Devagar com o andor que o santo é de barro fala também da fragilidade das crenças e das narrativas que sustentam nossa ideia de origem “Há algo de instável no que herdamos, no que reinventamos e no que escolhemos acreditar, e é onde mora a firmeza de nosso fundamento” afirma David Almeida.

Sobre David Almeida

A pesquisa de David Almeida se desenvolve em torno da experimentação pictórica em diversos meios e suportes como tela, linho, madeira, cerâmica e gravura. Sua produção tem como eixo principal as problemáticas do espaço e do corpo em percurso, explorando a visualidade do território íntimo, da cidade e da paisagem regional brasileira. No espaço pictórico, investiga os limites entre a paisagem do campo e o imaginário, ora enfatizando a densidade dos materiais em obras figurativas ou pendendo para a abstração, ora deslocando elementos naturais em telas de tom metafísico e espiritual. Almeida engendra os conceitos de memória, corpo, fantasmagoria e percepção óptica, criando telas nas quais o íntimo de uma cultura ou povo se manifesta de forma sutil na paisagem. Em seu trabalho, lugares e sensações dialogam com seu método e procedimento de representar, em que a densidade de uma noite pintada está intimamente relacionada com o processo oblíquo de construí-la na imagem.

Entre suas principais individuais, estão: Paisagens da Imprecisão, Cerrado Galeria, Brasília (2025); Vigília, Millan, São Paulo (2024); Arriba do Chão, Millan, São Paulo (2022); A task of wonders, durante a residência no Espronceda Art Center, em Barcelona, Espanha (2020); Lindeza, Referência Galeria de Arte, Brasília (2019); Encalço, Mult.i.plo Espaço Arte, Rio de Janeiro; Paradeiro, Zipper Galeria, São Paulo (2018); e Asseidade da Fenda, Elefante Centro Cultural, Brasília, Brasil (2016). Indicado ao Prêmio PIPA em 2022, foi premiado em 2015 e 2013 pelo Salão de Arte de Jataí, em 2014 pelo 20º Salão Anapolino de Arte e em primeiro lugar no I Prêmio Vera Brant de Arte Contemporânea em 2016. Realizou a curadoria de Vaquejada da Meia Noite, Almeida & Dale, São Paulo, Brasil (2025) e participou de mostras coletivas como Adiar o Fim do Mundo, FGV Arte, Rio de Janeiro, Brasil (2025); Funil, Casa SP-Arte, São Paulo, Brasil (2024);Paisagem interior, Casa Zalszupin, São Paulo (2023); Stranger than Fiction, Galleri Magnus Karlsson, Estocolmo, Suécia (2023); Contramemória, Theatro Municipal de São Paulo, Brasil (2022); In Residency, Residency Unlimited, Nova York, Estados Unidos (2022); Postcards, Galleri Magnus Karlsson, Estocolmo, Suécia (2020); Um lugar nenhum: Segunda Naturaleza, Fernando Pradilla, Madri, Espanha (2020); Triangular – Arte desse século, Casa Niemeyer, Brasília, Brasil (2019); Scapeland – Território de Trânsito Livre, Memorial da América Latina, São Paulo, Brasil (2018); UNS, Library of Love, Contemporary Art Center, Cincinnati, Estados Unidos (2017); Salão Transborda Brasília 2016, Caixa Cultural Brasília, Brasil (2016), entre outras.

Sobre Almeida & Dale

Fundada em São Paulo, em 1998, a Almeida & Dale promove o legado de artistas emblemáticos e emergentes, ao impulsionar a produção contemporânea nos cenários nacional e internacional. Com três endereços em São Paulo, a galeria realiza um programa expositivo e editorial de excelência, estabelece parcerias com instituições e coleções de renome e está presente nas principais feiras de arte mundiais, o que a posiciona como uma das mais influentes galerias brasileiras.

Representando mais de 50 artistas e espólios, reúne nomes fundamentais dos modernismos brasileiros, figuras-chave para a formação da arte contemporânea e a sua projeção internacional, além de artistas em plena atuação que continuam a redefinir o horizonte artístico. Em 2025, ao finalizar sua fusão com a prestigiada galeria Millan, estabelecida em 1986, também em São Paulo, a Almeida & Dale abraça um histórico de comprometimento profundo com o experimentalismo artístico, de colaboração estreita com artistas para os posicionar nas principais exposições e instituições do mundo e de impulsionamento internacional de carreiras.

De maneira ativa, a galeria assume o desafio de difundir múltiplas perspectivas e novas aproximações, centrada em ser uma plataforma para os artistas em projetos potentes. Ao unir expertise artística e um olhar estratégico para as dinâmicas globais do setor, a galeria fomenta a expansão e a capilarização da arte latino-americana por meio de uma atuação que segue amplificando e impulsionando o mercado globalmente. A Almeida & Dale é liderada pelos sócios-executivos Antonio Almeida, Carlos Dale, Hena Lee e João Marcelo de Andrade Lima.

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David Almeida, Santo do pau oco, 2026/Attr. 19th c. (detalhe). Foto: Cortesia do artista e Almeida & Dale, São
Paulo

Serviço

David Almeida: Devagar com o andor que o santo é de barro
06 de junho a 16 de agosto
Museu da Inconfidência | MIN
Praça Tiradentes, 139 – Centro Histórico
Ouro Preto – MG
Terça a quinta, das 10h às 18h (acesso até às 17h)
Sexta e sábado, das 10h às 20h (acesso até às 19h)
Domingo, das 10h às 18h (acesso até às 17h)
Entrada gratuita

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