“A cultura do estupro que normaliza o abuso e a violência sexual no país”, por Andréa Ladislau

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Por Andréa Ladislau Publicado em 18/07/2022, 13:37 - Atualizado em 18/07/2022, 13:38
Foto – Andréa Ladislau. Crédito – Arquivo pessoal. Siga no Google News

O caso do médico anestesista que estuprou uma mulher grávida, no momento do parto, no Rio de Janeiro, é mais um episódio que escancara uma já conhecida fragilidade social que fortalece a cultura do estupro no Brasil. Uma cultura distorcida que parece não estar preocupada em ensinar, desde os mais jovens, a não estuprar, a não cometer abusos ou toxicidades contra quem quer que seja. Mas apenas propaga rasos ensinamentos de como não sofrer o estupro. Rasos, pois cada vez mais, os noticiários se enchem de histórias tristes como essa.

Muitos estão em uma busca desesperada de tentar rotular o criminoso com um diagnóstico: psicopata? Doente mental? Psicótico? Estuprador em série? Mas, o que muitos não se dão conta é que, não é possível, fechar um diagnóstico subjetivo desta natureza, apenas com estes elementos.

É preciso um trabalho profissional, investigativo do ponto de vista da saúde mental, de forma mais minuciosa para concluir se existe algum tipo de enquadramento psíquico. No entanto, essa não deveria ser a principal preocupação, pois qualquer definição psíquica agora, só vai servir para minimizar uma pena judicial. O que importa, no entanto, é o ato criminoso, o estupro em si e as consequências devastadoras deixadas como marcas irreversíveis em todas as vítimas desse caso que chocou todo o país.

Infelizmente, a nossa realidade é cruel. Estatísticas mostram a crescente dos relatos de estupros, de todas as naturezas. Seja dentro das casas das vítimas, ou mesmo nas ruas, em eventos, em locais de trabalho ou mesmo, como foi esse fato, em instituições de saúde. O que demonstra a importância de políticas de proteção mais robustas, padronização de regimes éticos e de seguranças internas eficazes dentro de todos os ambientes, no sentido de evitar que possam ser marcados por traços de crueldade e perversidade que, certamente, provocam, nas vítimas, mudanças severas em sua percepção de valores e na forma como possam lidar com suas dores e com o mundo a sua volta, possibilitando ainda, o transporte do trauma para toda sua trajetória de vida.

Dentro deste contexto, se faz urgente o fortalecimento dos cuidados e da escuta ativa direcionados as vítimas deste crime, muitas vezes silencioso, que anula o sorriso e rouba a vivacidade de quem é atacado, ferindo e provocando sensação de culpa, inferioridade, fobias, além de dores físicas e na alma. Essas vivências traumáticas podem ser irreparáveis. Já que, os reflexos do abuso sexual e do estupro, afetam diretamente o psicológico através dos traumas sofridos.

Enfim, o caso do anestesista estuprador possuí uma dinâmica de perversões ilimitadas, que se manifesta como um horror contínuo para as vítimas que foram ceifadas de forma cruel e sórdida pelo perverso e desumano abusador. Sem sombra de dúvidas, muitas variáveis e complexidades envolvidas acusam o dano psíquico estabelecido nas mulheres vitimadas por esse indivíduo, que deveria defender a vida e, no entanto, atentou contra ela. Que ele pague por sua violência e que a sociedade seja mais severa na tratativa de crimes desta natureza, estabelecendo maior segurança e políticas de proteção para os cidadãos de bem. Além disso, que seja propiciado a essas mulheres o acompanhamento e amparo psicológico, médico e social adequado, na tentativa de resgatar a autoestima e a confiança em dias melhores.

Sobre a autora

Andréa Ladislau é Psicanalista (SPM); Doutora em Psicanálise, membro da Academia Fluminense de Letras –cadeira de número 15 de Ciências Sociais; administradora hospitalar e gestão em saúde (AIEC/Estácio); pós-graduada em Psicopedagogia e Inclusão Social (Facei); professora na graduação em Psicanálise; embaixadora e diplomata In The World Academy of Human Sciences US Ambassador In Niterói; membro do Conselho de Comissão de Ética e Acompanhamento Profissional do Instituto Miesperanza; professora associada no Instituto Universitário de Pesquisa em Psicanálise da Universidade Católica de Sanctae Mariae do Congo; professora associada do Departamento de Psicanálise du Saint Peter and Saint Paul Lutheran Institute au Canada, situado em souhaites; graduada em Letras - Português e Inglês pela PUC de Belo Horizonte.

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