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A Infância da Palavra na nova coluna Pedra de Assuntá

Samuel Eduardo Fortes estreia como colunista: filosofia, sociedade, tecnologia e sensibilidade humana em reflexões profundas sobre o mundo contemporâneo
Publicado em Noticias
Data de publicação: 26/05/2026 19:58
Última atualização: 26/05/2026 20:40

Escrevo sabendo que também sou cúmplice do assassinato. Aqui, as palavras surgem empurradas por sugestões que não nasceram de mim, completadas por um corretor que me poupa o erro e, com ele, me rouba o desvio, a hesitação, a descoberta. Escrevo com a sensação de que a língua está sendo progressivamente pasteurizada, encurtada, reduzida a um fluxo previsível que o algoritmo valida antes mesmo que o pensamento se forme por inteiro. A tecnologia, que prometia expandir a expressão, talvez esteja nos fazendo escrever todos iguais, mais corretos e menos vivos. E, no entanto, é com ela que insisto em me fazer entendido, enquanto me pergunto se ainda serei capaz de escrever sozinho amanhã.

E não é só a escrita que definha. A leitura também está sendo assassinada, e com um método ainda mais silencioso: o resumo. A IA nos oferece a síntese perfeita de qualquer livro, qualquer artigo, qualquer pensamento alheio, e nós aceitamos, agradecidos, porque o tempo é curto e a oferta é infinita. Mas, ao ler apenas o extrato, perdemos o corpo do texto. Perdemos a respiração do autor, o desvio inesperado, a frase que não era essencial para o enredo mas era essencial para nós. O resumo nos entrega a informação e nos priva da transformação. Ler não era só compreender, era demorar-se. E a IA, com sua eficiência devastadora, está nos convencendo de que o bastante é suficiente.

Talvez, no entanto, essa lógica não seja nova. A escrita nasceu por necessidade de registro, não de leitura. Os primeiros símbolos surgiram com os sumérios, na Mesopotâmia, por volta de 3500 antes de Cristo, e eram marcos de contagem: cabeças de gado, sacas de grãos, impostos. Eram anotações para controle, não para serem lidas por outros. A leitura como ato de decifrar um texto veio depois, como consequência. A escrita nasceu do poder. Do Estado que contava seus bens. Do templo que registrava oferendas. Do comércio que selava contratos. E a leitura, por muito tempo, foi privilégio de uma casta. O leitor comum, o leitor por prazer, o leitor que se demora é uma invenção tardia. A inteligência artificial não inaugurou a submissão da palavra à eficiência e ao controle. Ela a levou ao paroxismo. O que ela ameaça agora é justamente o que levamos milênios para conquistar: a leitura como ato de liberdade, a escrita como ato de descoberta.

Eu não sei se tenho medo da inteligência artificial ou se já deveria ter me acostumado com a ideia de que ela veio para ficar. Talvez as duas coisas coexistam, o medo e a aceitação, e talvez seja exatamente isso que torne tudo tão desconfortável.

Porque, no fundo, a pergunta que me persegue é esta: a IA vai nos servir ou vai nos substituir? Ela pode ser a ferramenta que nos ajuda, que abre espaço para novos tipos de trabalho, que nos liberta do cansativo e nos devolve o criativo. Essa é a promessa. Mas há também o outro lado, mais silencioso e mais brutal: o da máquina que não precisa de salário, não se cansa, não reclama e não se sindicaliza.

E o mais inquietante nem é a tecnologia em si. É o fato de que ela não tem consciência. A IA não deseja, não planeja, não tem ambição. Sozinha, ela não toma nada de ninguém, porque não quer nada.

E talvez o próprio nome já carregue um exagero perigoso. No fundo, isso que chamamos de inteligência artificial não é inteligência nem artificial. É uma ferramenta estatística para mineração de dados. É digital, formada por pixels e probabilidades. É discreta, criada pela nossa inteligência, que é analógica, contínua, feita de matéria viva e incerteza. O analógico contém o discreto, e não o contrário. Chamar de inteligência aquilo que apenas calcula padrões talvez seja o primeiro passo para entregarmos a ela mais do que ela pode ou deve ter.

O problema é que, por não ter vontade própria, ela se torna o instrumento perfeito. O capital não dorme, mas agora também não precisa mais de nós. A riqueza que a IA gera não se distribui sozinha, ela escorre, inteira, para os donos dos meios de produção com a verticalização da produção. Os mesmos de sempre. Só que agora mais fortes, mais rápidos e menos dependentes de gente.

Então o medo não é da máquina. É de um mundo onde o trabalho some e o capital fica. Onde quem já não tinha nada, agora não tem nem o que vender.

E, no entanto, há um medo ainda mais fundo, um medo que não começa na economia nem na tecnologia. Existe o esquecimento da infância, essa cicatriz que todos carregamos: queremos lembrar de algo, de um instante, de um cheiro, de nós mesmos antes da máscara, e não sabemos mais o dia exato em que nos perdemos de nossa própria naturalidade. A inteligência artificial não criou esse apagamento. Ela o aperfeiçoou. Porque antes de nos tirar o trabalho, a leitura, a escrita, ela nos afasta do que um dia fomos sem esforço: matéria viva, contínua, analógica, capaz de silêncio e assombro. O que está em curso não é apenas o assassinato da palavra. É o sequestro da infância que ainda respirava em nós. O que estamos perdendo agora, sem saber o dia nem a hora, não é só o emprego ou a palavra. É a infância de nós mesmos. E a infância da própria palavra. E isso, nenhum algoritmo poderá restituir.

Geólogo Samuel Eduardo Fortes, 13 de Maio de 2026
Ouro Preto- Minas Gerais

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