“Uma linda mulher” na Coluna Prosa na Janela

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Por Tino Ansaloni Publicado em 24/08/2018, 16:01 - Atualizado em 30/06/2019, 23:45

Todo o dia Júlia caminhava pelas ruas estreita dos bairros Água Limpa e Cabeças em Ouro Preto. Além de se preocupar com a saúde, ela também gostava dos vultos históricos que encontrava pelo caminho e do prazer que essa prática lhe proporcionava.

Era vista sempre em companhia do seu cão da raça labrador, oferta de uma amiga que a presenteou imaginando que a doçura do animal pudesse ajuda-la na recomposição de sua vida. Júlia havia se separado já há algum tempo e precisava de algo que a mantivesse animada.

Em companhia dos seus dois filhos e do Ted como chamava seu fiel escudeiro labrador, ia conduzindo os passos de sua família pelos caminhos da vida.

Certo dia resolveu fazer uma faxina em sua casa na tentativa de destruir algumas lembranças do passado que insistiam em lhe machucar.

Queimou papéis, desfez de roupas, mudou móveis de lugar, jogou fora souvenires que não lhe traziam boas lembranças.

Enquanto dispensava os últimos objetos, colocou na janela alguns envelopes para guardar, pois já sabia o que continha neles e por isso não  tinha a intenção de descarta-los.

Naquela movimentação toda, um dos envelopes caiu da janela e Júlia não percebeu.

Após finalizar a arrumação, Júlia pegou os envelopes da janela guardou numa caixa e colocou em cima do guarda roupa. Fechou a casa e foi cuidar de outras coisas lá pelos lados da cozinha.

O envelope que caiu da janela estava à beira de uma dessas redes de escoamento que margeiam as calçadas.

Um homem passou e apanhou o envelope que parecia não ter nada dentro. Despretensiosamente guardou e foi embora. Não teve a curiosidade de olhar se havia algo dentro dele. Só percebeu que não estava vazio três dias depois quando saindo para resolver problemas com seu cartão de crédito num banco na Rua São José, o utilizou para colocar alguns papéis que precisaria para resolução dessa pendência.

Quando estava sentava a espera do atendimento e já aproximando o número de sua senha, começou organizar a papelada para deixar adiantado quando fosse chamado.

Junto com a papelada que levara encontrou um envelope branco que não se lembrava de ter colocado lá.

Abriu para ver o que tinha dentro do envelope e o que viu lhe deixou boquiaberto.

Cinco fotos de uma linda mulher, sendo que a primeira já o fez desmanchar-se em encantamento. Uma morena de sorriso farto e olhar penetrante o surpreendera naquela imagem da foto.

Ele também não se conteve e abriu um sorriso, mas disfarçou logo, afinal estava na sala de espera de um banco.

Quando ia ver a segunda foto, alguém o alertou para o atendimento, ele nem se dava conta de que o número de sua senha piscava no painel eletrônico indicando a mesa que devia se apresentar.

Meio atordoado com a beleza da mulher ele ainda precisou de ajuda para chegar ao atendimento.

Quando saiu da agência bancária passou pela Praça Silviano Brandão, conhecida popularmente como “Largo da Alegria” e mais adiante já na Rua Getúlio Vargas sentou-se no muro de pedra e tendo as torres da Igreja do Pilar como testemunha, retirou a segunda foto e de novo aquele sorriso bonito e olhar penetrante estavam lá.

Os cabelos pretos cobriam levemente parte de seu olho esquerdo, que estavam avivados e externando alegria.

Um xale branco cobria- lhe os ombros, ela parecia olhá-lo de tanto que sua beleza o envolvera.

Passou então para a terceira foto e quanto mais ele olhava, mais desejava saber quem era a mulher da fotografia.

A foto mostrava a beleza de corpo inteiro, a perna esquerda a frente tendo também a mão do mesmo lado apoiando nela, seus óculos dava a ela um ar de intelectualidade. O cachecol que lhe adornava o pescoço além de aumentar sua beleza anunciava que fazia frio naquele dia.

As fotos eram todas em preto e branco.

Heitor pegou a quarta foto e viu que tinha alguma escrita no verso da fotografia. Antes de se maravilhar com a imagem da bela mulher, foi ler o que dizia as palavras ali contidas.

Água Limpa vinte de Julho de dois mil e dezesseis, logo intuiu que se tratava de uma moradora do bairro de mesmo nome. E que morava próximo do local onde havia encontrado o envelope pardo. Ainda devia morar lá, pois entre a data da foto e o ano corrente, não tinha muita distância.

Naquela mesma hora se dirigiu ao local onde havia encontrado a foto, na tentativa de pelo menos ver o rosto dela, mas não viu nada.

Foi embora e passou a noite olhando as fotos e pensando como iria localizar aquela linda mulher.

Naquela noite teve a ideia de dividir os bairros Água Limpa e Cabeças em dois setores, e assim o fez.  O pensamento era ampliar a foto de corpo inteiro e perguntar se alguém conhecia a linda mulher. Ele sabia que ela poderia não morar ali, o envelope poderia ter caído de alguém que passava pelo local, mas a inscrição atrás da quarta foto era uma dica de que suas suspeitas tinham fundamento.

Sentou próximo do local onde encontrou o envelope, e ali ficou esperando que alguém saísse de casa. Essa estratégia ele usou pensando que se ela morasse nas imediações, alguém iria conhecê-la quando visse a foto.

Avistou mais adiante uma porta se abrir, a passos largos caminhou naquela direção. Era oportunidade de abordar o primeiro morador.

Uma mulher saiu apressadamente da casa e tomou a direção oposta a sua, isso o obrigou a acelerar ainda mais os passos e não a alcançando gritou chamando por ela.

Mesmo com pressa ela parou para ver do que se tratava. Heitor já se aproximava, quando ela se se virou delicadamente e sorrindo perguntou em que poderia ajuda-lo. Ele estremeceu-se todo com o sorriso e o olhar dela, a mulher a sua frente, só tinha de diferente daquela que contemplava na fotografia, o som meigo que vinha daqueles lábios vermelhos e que a foto não lhe revelou.

Não teve coragem de dizer nada, apenas pediu desculpas e disse que se enganou. Ela educadamente sorriu e partiu para o compromisso pelo qual a fez sair com pressa de casa.

Ele encostou-se ao muro de pedra em frente a casa dela e não acreditava que  tinha conseguido na primeira tentativa.

Era prenúncio de que estava no caminho certo. Agora que sabia onde morava, precisava saber mais sobre ela. A coragem que lhe faltou ao encontra-la tinha que ser vencida, não poderia ser empecilho para almejar o amor da bela mulher.

Anotou o nome da Rua e o número da casa. Na lista telefônica conseguiu o telefone fixo dela e ligou para ver se conseguia falar-lhe.

Quando do outro lado da linha uma pessoa atendeu ao telefone, ele logo reconheceu a voz de sua fascinação.

Perguntou o nome dela e se apresentou dizendo ser o homem do encontro na rua perto de sua casa. Ela se lembrou de quem se tratava e disse que se chamava Júlia, ele se apresentou e então ela ficou sabendo que se chamava Heitor.

Ainda cheio de medo pensou rápido e disse a ela para procurar no dia seguinte uma carta que colocaria na fenda da pedra maior no paredão que ficava na frente de sua casa. Ela estranhou a orientação e perguntou o que significava tudo aquilo.

Heitor não conseguiu falar com ela e disse que saberia se seguisse sua orientação.

No dia seguinte assim que o sol nasceu Júlia foi até o paredão e encontrou um envelope, e nele quatro folhas de caderno com palavras trêmulas diziam para ela tudo que Heitor não conseguiu falar em viva voz.

Lá Heitor falou da beleza de seu sorriso, da grandeza de seu olhar, do bailar de seus cabelos, da leveza de seu caminhar, do doce som de sua voz.

Falou do sentimento que tomava conta de seu coração e da força que o conduzia na direção dela.

Júlia se emocionou, pois nunca havia visto nem experimentado algo parecido.

As últimas palavras de Heitor descreviam todos os seus defeitos, ele embora desejasse muito tê-la consigo, achava que ela jamais o aceitaria, mas queria se livrar do peso de nunca ter tentado.

Júlia Ligou para Heitor e avisou que havia deixado no mesmo lugar uma carta para ele. No outro dia antes de ir trabalhar Heitor encontrou na fenda da pedra um envelope cor de rosa e nele quatro folhas escritas à mão, a mesma quantidade que ele havia deixado para ela.

Júlia o agradecia pelas palavras bonitas que escreveu a ela em sua carta. Relatou também todos os seus defeitos e disse a ele da alegria de tê-lo conhecido.

Acrescentou que gostou dele pela luta que travou consigo mesmo, quando o medo o fez encontrar formas de falar com ela. Embora não tivessem se encontrado pessoalmente ele conseguiu dizer tudo que queria a Júlia.

Júlia terminou a carta dizendo a Heitor que rabiscara tudo que ele escreveu e chamou de defeito, e que bastou a ela saber que aquele homem tímido tinha dentro dele os mais nobres sentimentos.

Quando terminou de ler Heitor chorava, pois a esperança de ter o amor de Júlia havia avivado dentro dele.

Eles se encontraram, e no primeiro encontro Heitor olhou nos olhos dela e antes de explicar ou pedi-la em namoro pronunciou uma frase que suplantou tudo que havia pensado em dizer.

“Se existe uma deusa da beleza, essa deusa é você”.

Eles se envolveram num abraço em que as almas se encontraram.

Tudo ficou para trás e aquele dia foi o primeiro do resto de suas vidas.

 

 

 

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