“Cecília Meireles ensina”, por Paulo Geovane e Silva

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Por JornalVozAtiva.com Publicado em 26/02/2018, 09:55 - Atualizado em 26/02/2018, 09:55
Paulo Geovane e Silva é professor de Literaturas de Língua Portuguesa da Faculdade de Ciências Sociais Aplicadas de Belo Horizonte (FACISABH) e do Coleguium Belo Horizonte, mestre e doutorando em Literaturas Africanas de Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra (Portugal). Escreve mensalmente no Voz Ativa. Às vezes a literatura parece ser aquela voz da maternidade construída entre o amor e o sadismo do célebre “Eu te avisei...”, isto porque não raros são os momentos em que me deparo com um qualquer poema ou conto o qual, depois de lido, passa-me aquela real impressão de que as minhas intransigências foram cometidas no epicentro da minha liberdade e da minha consciência (nem sempre é assim, eu sei, mas estamos falando sobre responsabilidade). A dor desse aviso torna-se ainda mais aguda quando se trata de erros cometidos a longo prazo, tais como escolhas profissionais, relações afetivas ou até mesmo decisões simples que podem nos afetar por muitas décadas... Eu costumo brincar com a ideia de que a ocidentalidade tem implementado um paradigma humanoide e, portanto, muito amargo: ela nos toma mais ou menos trinta anos para imprimir em nós uma série de falácias e nos “dá” mais trinta ou quarenta anos (no melhor dos casos) para desconstruirmos todos esses equívocos – no meio disso tudo, ainda precisamos alcançar a felicidade... não é fácil. A gravidade da situação, contudo, não reside aí. Ela habita, antes, no fato de que esse processo de construção-desconstrução-reconstrução ideológica conduz-nos à ilusão de sonhos e anseios completamente equivocados, a ponto de o próprio Camões, ainda no século XVI, ter concluído: “Mudam-se os tempos; mudam-se as vontades”. Essa mudança ocorre justamente porque os nossos sonhos não são motivados pelas apetências e habilidades singulares que realmente temos, mas, sim, por um desejo egóico de se incluir num qualquer status social, isto é, num escopo de prestígio que possa nos distinguir pela alta posição em qualquer lógica hegemônica. O que mais motiva os nossos sonhos, portanto, é o desejo de poder. Tive essa percepção ao ler o poema Lua adversa, de Cecília Meireles, cujos versos me fizeram repensar o conteúdo das minhas gavetinhas em que, ao longo da vida, fui colocando e ‘ruminando’ alguns sonhos. Vejamos, primeiramente, o poema:   Lua Adversa  Tenho fases, como a lua, Fases de andar escondida, fases de vir para a rua... Perdição da minha vida! Perdição da vida minha! Tenho fases de ser tua, tenho outras de ser sozinha.   Fases que vão e que vêm, no secreto calendário que um astrólogo arbitrário inventou para meu uso.   E roda a melancolia seu interminável fuso!   Não me encontro com ninguém (tenho fases, como a lua...). No dia de alguém ser meu não é dia de eu ser sua... E, quando chega esse dia, o outro desapareceu...   Cecília Meireles,  Vaga Música Numa perspectiva mais generalista, o eu lírico tece algumas reflexões sobre a existência humana enquanto um complexo de fases combinadas por um binarismo de oposição: andar escondida/vir para a rua; ser tua/ser sozinha. Nessas “fases que vão e vêm”, a melancolia parece ser o sentimento que marca o ciclo da vida – “E roda a melancolia / seu interminável fuso!”. Entendendo a melancolia como a tristeza advinda de uma ausência cuja origem é desconhecida, foi possível perceber que o eu lírico representa o ciclo da vida como algo equivalente à inevitabilidade da falta, uma vez que, ao que parece, viver é sentir falta de algo, e essa falta é melancólica justamente porque não tem razão precisa ou origem exata. Mas vocês, leitoras e leitores, poderiam me perguntar: afinal, qual é a relação entre o poema e a problemática dos sonhos que vamos construindo ao longo da vida? Se, como eu disse, os nossos sonhos são, na maioria das vezes, determinados por motivações egoístas, observemos o título do poema e vejamos nele toda a revelação: Lua adversa. Primeiramente, as denotações: a) lua – um satélite da terra, ser que não tem luz própria; b) adverso – tudo o que está no local oposto em relação a qualquer expectativa. Tomando por base essas duas ideias, vemos no título do poema a representação da própria essência humana: a lua representa cada um de nós, seres que gravitam em torno de um qualquer desejo e que, ao mesmo tempo, refletem uma luz não pessoal, não original. Somos adversos justamente porque, nas tantas fases da nossa “lua”, os nossos desejos nos conduzem sempre ao lado oposto – adverso, portanto – em relação àquilo que realmente almejamos. Estar no lado contrário ao desejado implica que nem sempre sonhamos o sonho adequado, nem sempre desejamos o desejo condizente com a nossa essência. Como resultado, temos que: a) deveríamos repensar as verdadeiras motivações dos nossos sonhos e admiti-las, na medida em que muitos dos nossos desejos têm por base o ego; b) se ignoramos o item anterior, corremos o risco de ficarmos presos à busca e à dissidência infinitas, em virtude dessa adversidade essencial, que suplanta a existência humana no solo oposto ao possível – o impossível. Quem aqui é lua adversa? Aprendamos com Cecília Meireles, que tão incansavelmente nos ensina. Até logo!

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