Ocultar anuncios
Ao Vivo

33ª Reunião Ordinária de 2026

Role para baixo para ler nossas matérias
Vale Patrim 18-05-2026
ALMG Violencia - 16 a 30/04/2026
Saneouro 17/09/2025
PMOP 26/08/2025
Cooperouro 04/08/2025

Leia “A Pedra, José, Drummond e Nós, na 1ª Edição de Viagens Literárias, com Priscilla Porto

A escritora inaugura sua coluna que terá publicações quinzenais às terças-feiras
Data de publicação: 25/11/2014 20:33
Última atualização: 18/12/2014 10:31

Por Priscilla Porto

A Pedra, José, Drummond e Nós

“Nunca me esquecerei que no meio do caminho/tinha uma pedra”, enunciou o poeta maior Carlos Drummond de Andrade, no poema “No meio do caminho”.
“E agora, José”?

Todos já conhecem “a Pedra no meio do caminho”? E se não conhecem, em algum momento da vida, irão conhecer? A do poema-escândalo, síntese do espírito polêmico do modernismo até hoje causa espanto, assim como nossas pedras.

O que José – personagem drummondiano, que perpassou sua poesia e imaginação, e se tornou tão próximo de nós – faria diante da Pedra? E diante da festa que acabou?
Não poucas festas se acabam, e ao final delas, lá está A Pedra… bem no meio do caminho.

Devemos viver de festas ou de pedras? Ou nós mesmos proporcionamos a nós nossas “festas” e recebemos, sem saber de onde, as “Pedras”? Ou, ainda, será que plantamos pedras, em muitas atitudes e ações, e “inocentemente” ansiamos por colher festas?

“Havia uma Pedra no meio do caminho” – frase muito lida, muito proclamada, de universalidade sutil ou manifesta? Frase e poema “à flor da pele”? Todos têm pedras, todos seguem um caminho.

E José, “com a chave na mão/ quer abrir a porta, não existe porta”. Mas a Pedra está lá. Existe. Está no meio do caminho.
Inspirada em Drummond, também escrevi um poema-pedra. E quantos poetas não escreveram?

Bom, eis abaixo, o poema-pedra de minha autoria:

METAMORFOSE

A pedra caiu no chão.
O chão não esperava a queda.
A queda só nasceu
por causa da pedra.
O chão era só chão.
A queda não era queda,
a pedra era A pedra.
Em repentino supetão,
o chão não era só chão,
o chão era chão e pedra.
Pedra jogada por uma mão,
mão e pedra viraram queda.
Mão que virou pedra,
pedra que virou queda,
queda que virou chão.
Queda e chão
mão e pedra.

Poemas pedras insignificantes que exprimem o peso de nossos mundos? “Queda e chão/ mão e pedra.”

Ou mundos insignificantes que exprimem o real peso das pedras e a necessidade de que as festas não se acabem?

Melancolia de pedra obstáculo e melancolia de fim de festa. Melancolia que petrifica. “Sozinho no escuro/qual bicho-do-mato (…) sem parede nua/ para se encostar”.
Mas, a passagem não pode se mostrar impossível! E nem o cansaço pode parecer maior que o próprio obstáculo.

José! É você mesmo e também somos nós, os responsáveis pela ultrapassagem ou remoção de nossas pedras.

“Nunca me esquecerei desse acontecimento”.

Priscilla Porto

Autora dos livros “As verdades que as mulheres não contam” e “Para alguém que amo – Mensagens para uma pessoa especial”.

Matérias Salvas