“50 Anos esta Noite” na Coluna Falando Francamente com Antonio Marcelo Jackson

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Por Tino Ansaloni Publicado em 20/03/2014, 14:26 - Atualizado em 20/03/2014, 14:38

Antonio Marcelo Jackson

Doutor em Ciência Política. Professor da Universidade Federal de Ouro Preto.

Um dos maiores (de)méritos de nossa sociedade é ausência absoluta de memória quanto à nossa história política – pouco importando se tratamos de algo ocorrido há inúmeras décadas, no século passado, ou mesmo há meses: o resulto é quase sempre igual, a saber, ninguém se lembra. A coisa toda é tão gritante que o simples fato de passar os olhos em certos comentários publicados em redes sociais chego a ter a sensação de que eu estou errado, de que minha opinião é que está equivocada, tamanha é a certeza das afirmações apresentadas e dos inúmeros sujeitos que seguem esta ou aquela postagem. É muito mais fácil criar um mito do que estudar um pouquinho ou mesmo puxar da memória uma determinada cronologia de fatos e/ou análise dos mesmos.

Evidentemente, essa ausência de memória permite toda espécie de comentários incongruentes fazendo com que as pessoas não percebam o vínculo entre um problema contemporâneo e uma possível origem pretérita, ou seja, sem reduzir toda a vida a uma relação de causalidade, conhecer um pouquinho certas fundações e/ou início de qualquer coisa jamais fará mal a ninguém.

Um caso clássico nesses tempos de absoluta amnésia diz respeito à Ditadura Militar, com o devido apoio de vários segmentos civis, que perdurou oficialmente entre 1964 e 1985. Levando-se a sério os comentários nas redes sociais, a Ditadura foi um mar de tranqüilidade, defesa da cidadania e ausência de corrupção – elementos jamais vistos em nossa terra e jamais repetidos. Noves fora a construção de determinadas hidrelétricas, a construção da ponte Rio-Niterói, a construção da Transamazônica, o escândalo da Caderneta de Poupança Delfin, entre outros, jamais existiu corrupção nos governos militares. Que isso gente! Se todas as obras estavam sob comando de militares, não duvido que alguém afirme que esses, na realidade, eram comunas disfarçados de nobres membros do Exército, Marinha ou Aeronáutica. Sempre desconfiei que o Andreazza era um agente da Stasi (a polícia secreta da falecida Alemanha Oriental); tive poucas dúvidas das simpatias de Costa e Silva com o Kremlin, assim como tenho quase certeza de que o então Capitão do Exército Wilson Dias Machado, que estava num famoso carro Puma com o então Sargento Guilherme Pereira do Rosário numa agradável 21:00 da noite de 30 de abril de 1981 em frente a um dos pavilhões do Riocentro (Rio de Janeiro-RJ) eram simpatizantes da Służba Bezpieczeństwa, a polícia secreta polonesa. Aliás, retificando: creio que nesse último caso creio que eles eram da PIDE, a polícia secreta portuguesa. Se trato com duvidoso humor assuntos tão sérios é porque não há como sustentar seriedade num hipotético diálogo com pessoas que apresentam tamanhas falácias em relação aos Governos Militares.

Para falar de forma séria, por exemplo, podemos citar o formato adquirido pelas polícias militares nos estados a contar da Ditadura. Sim, porque provavelmente os defensores dos regimes autoritários sabem perfeitamente que as PMS dos estados assumiram o formato atual após 1964, ou mais precisamente, após o AI-5, quando deixaram de ser por excelência guardiãs da segurança dos cidadãos para se transformarem no braço armado estadual nos momentos em que o Destacamento de Defesa Interna (DOI) e o Centro de Operações de Defesa Interna (CODI), ambos diretamente subordinados ao Exército, não eram exigidos. Criou-se com o tempo uma cultura da opressão aonde qualquer um das camadas mais humildes da sociedade era transformado num inimigo em potencial por trazer em si a revolta contra as condições sociais em que vive. Digo isso porque tenho rarefeitas dúvidas se qualquer destacamento da Polícia Militar age de maneira igual em uma comunidade (ou favela) e um condomínio de luxo. Acredito que não. Aqui aproveito para fazer um relato pessoal. No final da década de 1980, meu pai e eu possuímos uma modesta loja de livros usados na Zona Norte do Rio de Janeiro e, como a atividade determinava, comprávamos as obras de particulares indistintamente. De certa feita, num dos lotes, apareceu um livro cujo título não me recordo de maneira perfeita e que possuía o carimbo da biblioteca da Polícia Militar do Rio de Janeiro; do que tratava o livro? TÉCNICAS DE TORTURA. Lembro-me de ter ficado enojado com aquilo e o revendi ao primeiro que passava – por acaso um militar (vá entender o destino!). É claro que lamento profundamente de não o ter guardado esses anos para que, por exemplo, ilustrasse esse texto e o apresentasse a alguns conhecidos meus. De qualquer maneira, jamais esquecerei certos princípios didáticos que regem a corporação.

Por fim, às vésperas da efeméride de 50 anos do Golpe, gostaria que os defensores do mesmo ao menos assumissem sua face tirânica, ao invés de apresentarem uma estúpida retórica de quem nada entende de história política. E para aqueles despossuídos de memória sugiro uma sucinta leitura de qualquer relato sobre a época.

Entendamos algo relativamente simples: que existem inúmeros corruptos nos governos do PT e do PSDB, eu não tenho a menor dúvida, assim como também, tenho certeza de que isso deve ser combatido de todas as formas – a começar por uma rápida reflexão na hora do voto. Contudo, defender que somente um modelo tirânico é capaz de coisas corretas é duvidar de minha modesta inteligência e da lembrança de inúmeras famílias de torturados e mortos.

Esse texto vai em memória de Amarildo e de Cláudia da Silva Ferreira.

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