Sobre a chegada do outono e Cecília Meireles

Estação do ano tem início nesta quarta-feira (20) no país e se estende até o dia 21 de junho. Cecília Meireles, a poeta carioca, escreveu vários poemas sobre as estações do ano.

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Por João Paulo Silva Publicado em 19/03/2019, 11:23 - Atualizado em 03/07/2019, 22:14

No Brasil, o outono tem início às 13h15 desta quarta-feira (20) e vai até 21 de junho, quando se inicia o inverno. Por estar situado em uma zona climática com clima tropical, as estações do ano no país não são bem definidas. Ainda assim, essa estação transitória revela uma série de significados e poesia.

Marcado por dualismos, o outono traz consigo aquela sensação de frio quando se está na sombra e calor quando expostos ao sol. É tempo de morte, mas também renascimento. As folhas ficam amareladas e caem gradativamente, o sol se esconde mais cedo, provocando dias menores e há uma maior incidência de nevoeiros pela manhã.

Talvez poucos poetas tenham se dedicado tanto a fotografar por meio de palavras as estações do ano e suas sutilezas. A poeta carioca Cecília Meireles (1901-1964), certamente foi uma dessas “deusas das palavras” que soube explorar este e outros temas de forma mística, lírica, quase musical, com rima e métrica bem definidas.

Sua principal obra, de acordo com estudiosos, é o ‘Romanceiro da Inconfidência’. Nesse longo poema, a poeta persegue os passos de Joaquim José da Silva Xavier, Tomás Antônio Gonzaga, Cláudio Manuel da Costa, Alvarenga Peixoto e outros líderes conspiradores mineiros, que lançaram as sementes da Independência brasileira.

De beleza e elegância ímpar, Cecília Meireles, sempre com chapéus vistosos de abas largas, provocou paixões entre seus amigos poetas, como Drummond e Murilo Mendes. Tinha horror a que a chamassem de poetisa e escreveu: ”Não sou alegre, nem sou triste. Sou apenas uma poeta”.

Marcada pela morte, pela orfandade precoce (perdeu os pais ainda na primeira infância) e pela linha simbolista de Verlaine e de Rimbaud, dominava ilimitados recursos de métrica. Usou-os todos, sem restrições.

Escolhemos um poema de sua autoria para abrir o outono em 2019, já que Cecília Meireles dedicou à mais romântica das estações a sua ‘Canção de Outono’.

Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.

De que serviu tecer flores
pelas areias do chão,
se havia gente dormindo
sobre o próprio coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando àqueles
que não se levantarão…

Tu és a folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
– a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão…

Embora um pouco triste, o poema nos leva a refletir sobre morte e renascimento. Perdas e ganhos. Sobretudo, o poema fala sobre a efemeridade da vida. Se o outono e inverno nos levam à introspecção e ao recolhimento, Cecília Meireles também ensina, por meio das estações, a arte de renascer. É também de autoria da poeta carioca o verso que se segue– “Aprendi com a primavera a deixar-me cortar e voltar sempre inteira”.  

Fonte- Academia Brasileira de Letras

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