“Seu Francisco e as Mulheres: o feminino na obra de Chico Buarque” Na Coluna Falando Francamente

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Antonio Marcelo Jackson F. da Silva*

 

Como citação aos 70 anos de idade que o compositor fez, no dia 19 de junho e para aqueles que apreciam a música popular brasileira (MPB), é quase um lugar comum a afirmação de que Chico Buarque de Holanda é o compositor que melhor traduz o universo feminino; aliás, apenas nas assim denominadas “redes sociais” na Internet, há inúmera quantidade de “comunidades” reafirmando tal parâmetro, isto para não citarmos aqui a reconhecida obra de Adélia Bezerra de Menezes que tratou academicamente do assunto (“Figuras do Feminino na Canção de Chico Buarque”), entre outros livros. Frente a tudo isso, o presente texto deseja tão somente contribuir para o assunto inserindo um outro elemento vinculado inquestionavelmente a famosa pergunta de Freud a Marie Bonaparte (“o que quer a mulher?”) e que Chico Buarque parece intuitivamente responder com uma afirmação: o que sente e pensa uma mulher.

Um primeiro passo a ser dado reside no entendimento amplo da obra do autor e que é confirmado pelo próprio em entrevistas: existe “um” Chico Buarque que vai do início da carreira até o seu quarto disco (“Chico Buarque de Holanda, Vol. 4”, 1970) e “outro” Chico Buarque a partir de “Construção” (1971). Se isto é perceptível para qualquer observador, por outro lado, nem mesmo o próprio autor consegue explicar o porquê de tal transformação. Maturidade, dirão alguns; o exílio na Itália, dirão outros. O fato é que a mudança foi brutal e alterou por completo a própria trajetória do artista. Concomitantemente, é por essa época que ele informa em entrevistas que iniciou a leitura sistematizada da obra do pai, o historiador Sérgio Buarque de Holanda, valendo inclusive a nota de que coletou documentos e informações para a segunda edição de “Visão do paraíso” quando residia na Itália. Frente a isso, perguntas que podemos fazer: em que nível essa “leitura sistematizada” influenciou o compositor? Ou então: é possível identificarmos certas categorias de análise utilizadas pelo pai na obra musical do filho?

Se a resposta for afirmativa, o segundo passo é pensarmos na principal contribuição de Sérgio Buarque em termos metodológicos às ciências sociais, a saber, a utilização de conceitos weberianos no pensar a história do Brasil. Pouco conhecido e, menos ainda, utilizado em nosso país até a publicação do livro “Raízes do Brasil” (1936), o sociólogo alemão Max Weber produziu diversas categorias de análise das sociedades e, uma em particular, o presente texto destaca: o “tipo ideal”. Segundo Weber, o “tipo ideal” é um modelo criado pelo pesquisador a partir da acentuação (ou seja, sobrevalorização) unilateral de um ou vários pontos de vista a partir de inúmeros fenômenos isolados e difusos percebidos no meio social, e tem como função criar parâmetros para se medir uma determinada “realidade”. Em outras palavras, o “tipo ideal” não existe na prática; trata-se exclusivamente de uma espécie de “régua” que permite “medir” (pela proximidade ou distância das “marcações da régua”) o comportamento das pessoas de uma determinada sociedade em certo período histórico. Ainda conforme o pensador alemão, a vantagem de tal metodologia é a produção de um modelo que permite, conjuntamente, ver a totalidade do meio social sem perder as inúmeras particularidades dos indivíduos.

Reunindo as informações até aqui citadas, podemos apresentar nossa hipótese: que a partir do disco “Construção” a obra de Chico Buarque é composta por inúmeros “tipos ideias” que nos permitem produzir retratos da sociedade brasileira contemporânea dos últimos 40 anos, aproximadamente. Há o “tipo ideal” do trabalhador (“Construção”, “Primeiro de Maio”, “Linha de Montagem”), do malandro em qualquer sentido do termo (“Partido Alto”, “Acorda Amor”, “Homenagem ao Malandro”), das relações afetivas (“Caçada”, “Trocando em Miúdos”, “Eu Te Amo”, “Futuros Amantes”). De todos, destacamos um “tipo ideal”, a “mulher”, e deste “tipo ideal” extrairemos quatro subtipos: a “mulher resignada”, a “mulher que se transforma”, a “mulher independente” e a “mulher mãe”. Vejamos cada um deles.

Conforme a definição de qualquer dicionário, resignado é o sujeito “paciente às amarguras da vida”, que aceita, conformado, aquilo que o destino lhe reservou. A “mulher resignada” é, portanto, aquela que apesar de discordar intuitivamente ou em palavras sua condição social, acata a mesma como um destino manifesto que deve ser cumprido. Na obra de Buarque, ela aparece em “Valsinha” (“…então, ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar…”), “Teresinha” (“…o segundo me chegou como quem chega do bar…”), “Suburbano Coração” (“…quando aumentar a fita, as línguas vão falar/ Que a dona tem visita e nunca vai casar…”), “A Mais Bonita” (“…pra que os olhos do meu bem não olhem mais ninguém…”). De maneira quase simplória essa mulher aceita seu papel e, quando muito, espera que em algum momento ou ao final da estrada a vida venha a lhe sorrir. Nesses casos, são sempre mulheres de meia idade – é o que se pode perceber nas letras -, talvez parte de uma geração cujo ato de resignar-se fosse o mais nobre a ser esperado do sexo feminino. Há afeto e melancolia em cada uma delas ou, quem sabe, na mesma mulher que se reapresenta sob a forma das diversas músicas.

No outro extremo, temos a “mulher que se transforma”. Esta, ao contrário da primeira, tem na experiência o motivo para a mudança. Percebe sua condição social e o papel que lhe foi reservado, mas guarda na garganta as mil razões para a ruptura e, com o tempo, de fato rompe com o destino, transformando-se em protagonista de seu mundo. Humilhada em “Atrás da Porta” (“…e me arrastei e te arranhei/ E me agarrei nos teus cabelos…”), ela fica a um passo da explosão em “Sem Açúcar” (“…a cerveja dele é sagrada, a vontade dele é a mais justa/ A minha paixão é piada, sua risada me assusta…”), rompe com rancor e dá ao homem a “punhalada nas costas”, nas próprias palavras de Chico Buarque, em “Olhos nos Olhos” (“…tantas águas rolaram/ Quantos homens me amaram bem mais e melhor que você…”). Já devidamente escaldada, debocha da submissão das outras em “Mulheres de Atenas” (“…elas não têm gosto ou vontade/ Nem defeito, nem qualidade…”) para, finalmente, dona de seu próprio nariz, sentimento e corpo, propor os termos da relação que deseja em “Palavra de Mulher” (“…já te deixei jurando nunca mais olhar pra trás/ Palavra de mulher, eu vou voltar…”). Sem dúvida é uma mulher que “aprendeu com o tempo” e em algum momento de sua vida tomou as rédeas dos acontecimentos. Não é uma mulher jovem; mas guarda a jovialidade pelo renascimento conquistado.

Coabitando o mesmo mundo das anteriores, a “mulher independente” é aquela que carrega na sua existência a liberdade. Porém, interessante é percebermos que a ideia de liberdade é traduzida por Chico Buarque no registro da sexualidade das personagens. Para o filósofo Herbert Marcuse, os desejos e entendimentos sobre a realidade de cada um de nós é organizado pelo meio social que acaba nos oprimindo. Buarque, em tese, “compra essa ideia”; mas, a utiliza para inviabilizar a opressão. Assim, se a mulher pode ser “traduzida” no prazer sexual que proporciona ao homem, então é nesse mesmo prazer que sua liberdade será conquistada. Não é de se estranhar, por exemplo, que as prostitutas buarquianas são absolutamente independentes e pragmáticas como em “Ana de Amsterdam” (“…da cama, da cana, fulana, sacana, sou Ana de Amsterdam…”), “Ai, se Eles me Pegam Agora” (“…ai, se papai me pega agora/ Abrindo o último botão…”), “Folhetim” (“…mas, na manhã seguinte, não conta até vinte/ Te afasta de mim…”). A prostituta, no final das contas, é aquela que vende o corpo, mas não seu prazer: é a única mulher que o homem não consegue conquistar e, portanto, exercer algum domínio.

Mas, não apenas prostitutas são livres. Há também a mulher que, de tão independente, dá o tom da relação e que aparece em “Tatuagem” (“…quero pesar feito cruz nas tuas costas…”), “Sob Medida” (“…agradeça ao Senhor/ Você tem o amor que merece…”) e, suprema humilhação, obriga o homem a acatar esse comando em “A Rosa” (“…a santa às vezes troca meu nome…”) e “Ela Faz Cinema” (“…talvez nem me queira bem/ Porém, faz um bem que ninguém me faz…”). De idade indefinida, essa mulher atemporal dita as regras e as cartas do jogo, cabendo ao homem apenas aceitar.

Em nossa pequena lista, chegamos a “mãe”. Curioso percebermos que a maternidade na obra de Chico Buarque é acompanhada da ideia de perda, real ou ficcional que lhe dá voz. Aparece dramaticamente (por ser uma história real) em “Angélica” (“…só queria embalar meu filho/ Que mora na escuridão do mar…”) e na personagem de “Pedaço de Mim” (“…oh, metade afastada de mim…”). Aflora cruelmente na singela visão de mundo de uma mulher humilde que não consegue ou não quer ver as delinquências e morte do filho em “O Meu Guri” (“…o guri no mato, acho que ‘ta lindo…”) e, invertendo o ponto de vista, surge no filho pequeno ao perceber as estratégias da mãe em relação ao cotidiano em “Você, Você” (“…que blusa você, com seu cheiro, deixou na minha cama…”). De qualquer idade, é o “tipo ideal” de mãe que cria o filho para perdê-lo: sentido e destino de ser mãe. É, de certa forma, a reedição da “mulher resignada”, agora nas vestes da maternidade.

Como foi dito no início, desejou-se tão somente acrescentar mais um item ao debate sobre o feminino na obra de Chico Buarque. Ainda assim, que conclusão podemos ter? Se for aceitável a ideia de que a obra buarquiana, a contar de 1971, é uma sucessão de “tipos idéias” weberianos e que na temática sobre a mulher esses “tipos ideias” assumem uma condição única, então, a percepção que parte significativa das mulheres tem, consegue ser explicada. Um fato interessante que se pode destacar nesse sentido é que os comentários produzidos pelo sexo feminino a respeito da obra do compositor nunca caminham em frases como “eu vivi isso” ou “eu passei por isso”, mas sim, que ele “sente e pensa como uma mulher”, e é o próprio Chico que, exercendo sua verve humorística, disse de certa feita que suas músicas no feminino são compostas por uma mulher e compradas por ele, afinal, enquanto homem ele jamais poderia ter tamanha sensibilidade. Aliás, a ideia de “sensibilidade” é um “tipo ideal” unicamente feminino? Deixemos a resposta para uma outra oportunidade.

 

* Doutor em Ciência Política e professor da Universidade Federal de Ouro Preto.

By |2014-06-19T16:31:41+00:0019 de junho de 2014|Colunas, Cultura, Destaques, Falando Francamente, Noticias|

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