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Afonso Bretas transforma pedra-sabão em arte, cultura e aprendizado com oficina em Ouro Preto

Conhecido pelo icônico carrinho, artista mantém viva a tradição da escultura
Publicado em Cultura
Data de publicação: 02/06/2026 18:15
Última atualização: 02/06/2026 22:15
Afonso Bretas ensina técnicas de escultura em pedra-sabão a estudantes durante oficina realizada em sua residência, no bairro São Francisco, em Ouro Preto. Foto: José Storry
Afonso Bretas ensina técnicas de escultura em pedra-sabão a estudantes durante oficina realizada em sua residência, no bairro São Francisco, em Ouro Preto. Foto: José Storry

OURO PRETO (MG) – Em uma cidade reconhecida mundialmente por seu patrimônio histórico e cultural, alguns personagens acabam se tornando parte da própria identidade local. É o caso de Afonso Bretas, integrante de uma das mais tradicionais famílias de artistas de Ouro Preto, conhecida pela produção de obras em pedra-sabão e pela contribuição à preservação dos saberes artesanais da região.

Fale com o artista pelo WhatsApp 31 99495-2679

Muitos moradores e turistas reconhecem Afonso pelo curioso carrinho equipado com sistema de som que, durante anos, se transformou em palco itinerante para o personagem Astrogildo, figura que marcou eventos culturais e atividades educativas na cidade. Mas é na oficina de escultura em pedra-sabão que o artista encontrou uma de suas maiores formas de expressão e compartilhamento de conhecimento.

No último dia 31 de maio, o jornalista Tino Ansaloni acompanhou uma oficina ministrada por Afonso em sua residência, na Rua Miguel Alves Pereira, no bairro São Francisco. A atividade reuniu 29 estudantes do Colégio Salesiano Santa Rosa, de Niterói (RJ), que tiveram a oportunidade de conhecer de perto uma das mais tradicionais artes ligadas à história de Ouro Preto.

Mais de três décadas ensinando arte

A trajetória como educador começou há mais de 30 anos, quando um projeto foi incorporado pela Prefeitura de Ouro Preto e passou a integrar atividades da rede municipal de ensino.

Na época, os alunos frequentavam a casa da família Bretas, na Vila São José, onde participavam de oficinas durante o horário escolar. Posteriormente, a iniciativa seguiu em Passagem de Mariana e continuou alcançando novos públicos.

Hoje, Afonso voltou a oferecer oficinas em seu próprio bairro, com o objetivo de aproximar moradores e visitantes da cultura local.

“Já são mais de 30 anos dando oficina. Agora voltei a trabalhar aqui para trazer cultura, arte e movimentação para o bairro. Tem dado muito certo”, conta.

Relembrando um pouco do carrinho do Bretas, o Bretas Móvel

A pedra-sabão como patrimônio vivo

Ao falar sobre o material que moldou sua trajetória, Afonso demonstra uma relação quase afetiva com a pedra-sabão.

Para ele, a rocha que há séculos faz parte da história dos Inconfidentes continua sendo uma das maiores riquezas da região.

“O ouro os estrangeiros levaram embora. A pedra-sabão ficou. Hoje eu a chamo carinhosamente de nosso ouro”, afirma.

Presente em esculturas, panelas, peças decorativas, mobiliário, monumentos e elementos arquitetônicos, a pedra-sabão está profundamente ligada à identidade cultural de cidades como Ouro Preto, Mariana, Congonhas e Ouro Branco.

Segundo o artista, o material gera trabalho, movimenta a economia e cria conexões humanas.

“Praticamente tudo que conquistei na vida devo à pedra-sabão. Ela me deu trabalho, me trouxe amizades e me aproximou de pessoas do Brasil inteiro.”

Arte livre e criatividade

Nas oficinas conduzidas por Afonso, não existem moldes ou modelos obrigatórios.

Cada participante escolhe seu próprio pedaço de pedra e decide o que deseja criar.

A proposta é estimular a criatividade e permitir que cada pessoa desenvolva uma relação particular com o material.

“A pedra-sabão não aceita violência nem pressa. Ela aceita carinho e paciência”, explica.

O resultado são peças únicas, produzidas a partir das emoções, experiências e percepções de cada aluno.

Para Afonso, a verdadeira arte nasce justamente dessa singularidade.

“Quando você coloca o coração na ponta dos dedos, o que produz passa a ser único no mundo.”

Sustentabilidade e reaproveitamento

Outro aspecto importante do trabalho desenvolvido pelo artista é a preocupação ambiental.

Em vez de retirar matéria-prima diretamente das montanhas, ele utiliza sobras descartadas por oficinas e artesãos que trabalham em escala comercial.

A prática reduz desperdícios e mostra aos participantes que é possível produzir arte a partir de materiais reaproveitados.

“Nunca vou à montanha tirar pedra. Trabalho com aquilo que seria descartado. É uma forma de ensinar arte e também consciência ambiental.”

Alunos de todo o Brasil

Ao longo dos anos, milhares de pessoas passaram pelas oficinas de Afonso Bretas.

Entre elas estão estudantes de escolas públicas, visitantes de diversas regiões do país e até filhos de empresários e personalidades conhecidas.

O artista recorda que já recebeu grupos de instituições de ensino de alto padrão de São Paulo e do Rio de Janeiro, incluindo a filha da apresentadora Xuxa.

Apesar da diversidade dos públicos, ele afirma que o encantamento é sempre o mesmo.

“Os alunos chegam sem nenhuma experiência. Quando percebem que conseguem criar algo com as próprias mãos, ninguém quer ir embora.”

O legado da família Bretas

Afonso também faz questão de destacar a importância dos irmãos, reconhecidos pela excelência artística em trabalhos com pedra-sabão.

Entre eles está Liboro Bretas, referência na produção de oratórios e esculturas que unem técnica, pesquisa e inovação.

Com humildade, Afonso prefere se definir como um transmissor de conhecimento.

“Eu ensino a técnica. Artista ninguém ensina ninguém a ser. O importante é que quem passar por mim consiga me superar.”

Essa visão resume a essência de sua trajetória: utilizar a arte como ferramenta de transformação, preservação cultural e desenvolvimento humano.

Em uma cidade onde a pedra-sabão ajudou a construir igrejas, monumentos e parte da identidade local, Afonso Bretas continua moldando não apenas esculturas, mas também histórias, memórias e novas gerações de apreciadores da arte ouro-pretana.

Todas as fotos são de José Storry

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