“A Política e o Crime Organizado” na Coluna Falando Francamente

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Por Tino Ansaloni Publicado em 27/03/2014, 12:19 - Atualizado em 27/03/2014, 12:23

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Antonio Marcelo Jackson

Doutor em Ciência Política. Professor da Universidade Federal de Ouro Preto

 

Não é de hoje e nem é um lamentável privilégio do Brasil que as relações políticas se vinculam de forma promíscua com segmentos marginais (no sentido criminal) da sociedade; e isso é relativamente simples de explicar. Na medida em que os objetivos passaram a povoar exclusivamente o universo decadentemente maquiavélico, onde apenas dois interesses comandam as relações sociais (chegar ao poder e manter-se no poder) e, por outro lado, identificou-se uma das maiores características das democracias liberais modernas que é a irracionalidade do eleitor (em todos os locais as pessoas votam por qualquer motivo sem fundamento ideológico ou meta quanto ao bem-estar público), as ações daqueles que desejam “habitar” os centros de poder foram pautadas exclusivamente pela eficácia de seus atos, ou seja, se efetivamente esta ou aquela prática os faria chegar ao controle das relações políticas. A isso se deu o nome de “real politic”, a saber, uma política sem romantismo ou ideal, voltada exclusivamente a conquista e manutenção do órgão controlador e administrador.

Tal fórmula que, em sua origem, justificava as mais estranhas alianças partidárias ou de segmentos sociais, ganhou com o tempo contornos inimagináveis ao pensador florentino do século XVI citado acima quando tais acordos passaram a incluir o crime organizado para a obtenção de votos e longevidade da classe de governantes e legisladores. Situações como a eleição de John F. Kennedy, nos Estados Unidos, e o Japão pós-Segunda Grande Guerra, onde os membros da Yakuza (a máfia japonesa) raramente são presos, conforme todos os analistas, demonstram o grau em que as relações supracitadas ocorrem.

Para o universo tupiniquim é interessante notar que as relações entre o poder e o crime organizado ganharam relevo a partir da Ditadura Militar. Não que antes não existisse este ou aquele caso em que um marginal agisse com certa desenvoltura nos meandros da política, mas sim, que isso foi como que “institucionalizado” quando os militares chegaram ao poder por meio do Golpe de Estado de 01 de abril de 1964. Vejamos uma pequena série de exemplos. No final da década de 1960, a 1ª Companhia de Polícia do Exército (PE) da Vila Militar (Deodoro, Rio de Janeiro-RJ) fez intensa repressão a prefeitos e vereadores da Baixada Fluminense e, com isso, abriu terreno para o nascimento do “império” de Aniz Abraão David (o Anísio da Beija-Flor); Castor Gonçalves de Andrade e Silva (o falecido Castor da Mocidade Independente de Padre Miguel) fez inúmeros acordos com o Regime para a manutenção da fachada legal de alguns de seus “empreendimentos”; para não elencarmos aqui uma lista sem fim de nomes que saíram das Forças Armadas para o crime como o coronel Freddie Perdigão Pereira, o sargento Ariedisse Barbosa Torres, e um dos nomes mais famosos, Ailton Guimarães Jorge, ou simplesmente o Capitão Guimarães. Notem que o acordo sempre era bem simples: os bicheiros ajudariam na delação e perseguição aos críticos do Regime e, como prêmio, teriam maior tolerância dos órgãos de segurança pública. Não há a menor necessidade do uso da imaginação em perceber determinadas origens na promiscuidade entre as PMs e o jogo do bicho.

Uma segunda etapa das relações pouco republicanas da política com o crime organizado ocorreu à época do governo de Leonel Brizola no estado do Rio de Janeiro: para a construção de uma via expressa (a Linha Vermelha) o governador entrou em acordo com os traficantes da Favela da Maré para que a obra fosse concluída. Pano rápido, nesse caso. A sequência não parou e no mandato de Anthony Garotinho a promiscuidade entre o poder e o crime atingiu patamares inacreditáveis do Rio de Janeiro, assim como também, não me estendo a outros estados, pois quero acreditar que a memória recente do leitor o remeta a Carlinhos Cachoeira (no Centro-Oeste do país) e a certa facção do crime organizado em São Paulo.

O fato é que cabe uma singela pergunta: tudo isso ocorre em nome de se conquistar votos, de se controlar o poder, de manipular todos os recursos públicos e direcioná-los aos interesses mais mesquinhos e, frente a isso, não percebe o eleitor a armadilha criada? Não trato ingenuamente de acreditar numa revolução e a contar de amanhã as pessoas adquirirem uma consciência política que jamais tiveram, mas sim, de pensar a partir dos interesses privados e lembrar o enorme prejuízo causado por tal prática ao bolso de cada um de nós.

Ao aceitar o candidato vinculado ao tráfico, à contravenção, à milícia, o eleitor admite que seja assaltado ao menos duas vezes: no voto e nos impostos. E não custa lembrar, ainda mais num ano eleitoral, que as áreas dominadas pelo banditismo em comum acordo com a classe política são geralmente áreas sujas, com pouca ou nenhuma ação do poder público, sem escolas, sem lazer. Assim, resta-me tão somente essa questão: até quando?

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