Leia o conto “A Salvação”, da escritora ouro-pretana Valdete Braga

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Por João Paulo Silva Publicado em 26/03/2019, 10:34 - Atualizado em 03/07/2019, 22:42

A Salvação, por Valdete Brga

Quando eu era criança, era comum, na quaresma, nossos avós nos assentarem em círculos e contarem histórias. Entre mulas sem cabeça, fantasmas e almas penadas, as histórias prendiam a nossa atenção. Este conto é inspirado em uma delas.

Aconteceu em meados de 1800. Uma escrava alforriada vivia nas imediações de Vila Rica, em uma fazenda, com os avós, também alforriados. Dos pais não tinha notícias, uma vez que foi separada dos mesmos ao nascer. A mãe foi vendida como mucama para uma família abastada de Vila Rica, e o pai foi trabalhar no campo. Foi criada pelos avós, que trabalhavam em uma fazenda na região do hoje distrito de Santa Rita, e, quando não tinham mais idade para produzir, os seus patrões, na época denominados “donos”, pessoas de bom coração, deram-lhes um pequeno pedaço de terra com uma cabana para morar. Gratos pelos serviços dos ex escravos e por eles, devido à idade avançada, precisarem de alguém que lhes cuidassem, concordaram em alforriar também a adolescente, que com eles foi morar.

Assim cresceu Rosa, livre ao lado dos avós maternos, mas sem liberdade para frequentar a sede da fazenda ou sequer ir à imponente cidade de Vila Rica, devido à cor de sua pele. O avô sempre a prevenia de que uma adolescente negra nas ladeiras da cidade seria problema na certa e assim ela permanecia o tempo todo na cabana, ao lado dos avós. Quando, raramente, ia até a cidade, acompanhada pelo capataz da fazenda, ficava encantada com os casarões e a majestade daquele lugar. Fazia perguntas, queria saber a história das igrejas e casarões, e o capataz pacientemente explicava tudo àquela jovem curiosa.

Alguns dias depois que Rosa completou dezoito anos, o avô veio a falecer. O sofrimento da menina foi enorme, e após alguns meses, a avó seguiu o companheiro de tantos anos. Os colonos diziam que ela morreu de tristeza e Rosa acreditava nisto.

Pouco tempo se passou e o dono da fazenda foi até a cabana, e disse que ela não podia continuar ali.

– Mas para onde eu vou? Não tenho ninguém, sou alforriada, mas ninguém oferece emprego a uma mulher negra. Por favor, deixe-me ficar, nem que seja como escrava.

– Lamento muito – respondeu o fazendeiro. Você já está adulta e minha esposa não quer que eu fique sustentando você, sem os seus avós por perto. O povo iria falar.

Em seguida, estendeu a mão e deu à jovem uma moeda de prata. “Junte as suas roupas e leve esta moeda de prata para sobreviver, enquanto não conseguir emprego em alguma fazenda da vizinhança” – disse, e foi embora, sem olhar para trás.

Com lágrimas nos olhos, Rosa embrulhou as poucas roupas que tinha em uma trouxa e seguiu caminho. Porém, sem saber como ou porque, seus pés a guiaram exatamente para o centro da cidade, uma cidade que mal conhecia, onde o avô sempre recomendava que não fosse sozinha. Não era mais uma adolescente, já era uma mulher adulta e saberia se defender. Alguma coisa, ela não sabia o que, guiava os seus passos.

Ao entrar na cidade, percebeu de imediato os olhares voltados para ela. Uma mulher negra, com roupas simples e surradas, mas que não eram de escrava, sozinha e com uma trouxa de roupas nas mãos, andando pelas ladeiras e vielas da cidade, não era comum. Quem seria? De onde vinha? Os varões e donzelas se afastavam, madames tiravam as crianças do caminho, mas ela seguia ereta e tranquila, sem saber para onde.

De repente, depara em sua frente com uma escada de degraus largos, em uma rua onde o capataz da fazenda nunca a havia levado. Movida por um impulso, desceu aquela escadaria e deslumbrou-se com a mais bela cena que já havia visto, em toda a sua vida. Uma igreja maravilhosa, majestosa, se apresentava à sua frente. Pessoas entravam para a missa e ela ficou parada um pouco afastada da porta, encantada e assustada ao mesmo tempo. O padre, que chegava para rezar a missa, passou por ela.

– Quer entrar, minha filha?

– Eu posso? Perguntou, timidamente.

O padre, senhor de idade e sábia experiência, sorriu para ela.

– Todos são bem-vindos à casa do Senhor. Hoje celebrarei a missa para as almas perdidas. Entre comigo e ninguém a importunará.

Dentro da igreja, Rosa sentiu-se ainda mais encantada. Não pensou na cor de sua pele nem nas vestes simples que usava em comparação com as roupas das damas da cidade. Meio escondida, perto da porta, assistiu a missa pelos mortos, rezou pelos avós e pelos pais, que não sabia se ainda viviam ou não, e por todas as almas que precisassem de luz. Terminada a missa, o sacristão passou com um saco de feltro, onde as pessoas depositavam moedas. Chegando perto dela, Rosa perguntou ao sacristão:

– Para que é este dinheiro?

– São ofertas que recolhemos para manutenção da igreja, para que possamos sempre rezar as missas dominicais e uma vez por mês rezamos esta missa, pelos falecidos. Por isto esta se chama missa dos mortos.

Rosa colocou a mão no bolso do surrado vestido, segurou a moeda de prata entre os dedos e por alguns segundos, pensou que aquela era a única moeda que tinha. Com um valor muito superior ao das moedas colocadas no embornal pelos cavalheiros e damas da sociedade, aquela moeda poderia matar-lhe a fome por alguns dias. Mas como não tinha mais nada a oferecer, não titubeou: colocou-a no embornal do sacristão.

Terminada a missa, esperou, no fundo da igreja, que todos saíssem e, quando se viu sozinha, assentou-se no último banco e ficou alguns minutos admirando toda a beleza daquela igreja. Olhando fixamente a imagem de Nossa Senhora do Pilar, no altar, implorou à virgem que guiasse seus passos e encaminhasse aqueles para os quais rezara aquela missa.

Absorta em seus pensamentos, não percebeu a entrada de um rapaz distinto, muito bem vestido, na porta da igreja. Aproximando-se do banco onde Rosa estava, o moço tirou o chapéu em sinal de respeito, e assentou-se ao seu lado. Assustada, ela já ia se afastar, quando ele pediu, delicadamente:

– Por favor, não vá embora. Preciso falar com você. Sei que está procurando emprego. Existe na cidade uma senhora muito boa, que necessita com urgência de uma dama de companhia. Vou lhe dar o endereço e uma carta de recomendação. Você sabe ler?

– Sim – respondeu Rosa – a sinhazinha da fazenda onde fui criada ensinou-me. Mas não conheço a cidade. Não sei como chegar. Quem é o senhor? Por que está ajudando uma pobre ex-escrava que não pertence ao seu mundo?

Ignorando as perguntas da jovem, o rapaz sorriu e disse:

– Lembra-se da escadaria que você desceu para chegar até esta igreja? Basta fazer o caminho inverso. Suba-a novamente, e vai chegar a uma rua, cujo nome é Rua de São José. O número da casa está neste papel. No envelope está a carta de recomendação. Leve os dois e não demore. Tenha Fé.  A senhora está em casa neste horário.

Dito isto, o rapaz fez uma reverência, como se Rosa fosse uma dama, e retirou-se.

A jovem ficou paralisada por alguns minutos, com o envelope e o papel com o endereço nas mãos. Logo levantou-se, pegou a sua trouxa de roupas e correu até a porta da igreja, cheia de perguntas para aquele moço tão distinto e educado. Lá chegando, porém, não mais o encontrou.  Respirou fundo e seguiu em direção ao caminho indicado. Ao chegar ao endereço, perdeu o fôlego. Viu-se diante de um belíssimo casarão, com enorme sacada e flores nas varandas. Teve medo de bater. Os transeuntes mudavam de calçada para não passar perto dela e quando se deu conta, ela estava sozinha daquele lado da rua. Respirou fundo, encheu-se de coragem, e bateu com força o ferrolho na grossa porta de madeira. Ouviu passos e logo um senhor em trajes de mordomo abriu a porta. Antes que pudesse dizer algo ele falou “desculpe, moça, não temos roupas velhas nem comida para dar agora”, e já ida fechar a porta.

Em questão de segundos, passou pela cabeça de Rosa toda a sua infância na fazenda, os conselhos dos avós, e lembrou-se principalmente das palavras do desconhecido na igreja. “Tenha Fé”, ela lembrou, erguendo a cabeça e falando ao mordomo, com uma altivez jamais vista em uma escrava:

– Desculpe, senhor, eu não vim pedir nada. Tenho uma carta para a dona desta casa.

Neste momento ouviu-se, de dentro da mansão, uma voz de mulher:

– O que está acontecendo, Alfredo?

Sem dar ao mordomo tempo de fechar a porta, Rosa literalmente deu um pulo para dentro da sala e viu-se frente a frente com uma senhora toda vestida de preto, com traços ainda jovens, mas um olhar tão triste que a emocionou.

– Minha senhora, queira me desculpar. Não quero faltar-lhe ao respeito. Não estou aqui por minha vontade, vim a pedido de um desconhecido, que pediu que lhe entregasse esta carta. Ato contínuo, estendeu o envelope para aquela senhora distinta e bem vestida, dando em seguida um passo atrás, temerosa da reação da mulher diante de sua ousadia.

Para sua surpresa aquela dama elegantíssima, demonstrando curiosidade, abriu o envelope. Porém, à medida em que lia a mensagem, a mulher foi ficando pálida e chegou a titubear, como se fosse cair. O mordomo correu a ampará-la e levou-a a se assentar em um divã, que ficava do outro lado da sala. Rosa deixou a trouxa de roupas cair ao chão e acompanhou-os. A senhora chorava convulsivamente, com a carta nas mãos. Na parede, em cima do divã, onde ela se amparava, havia uma foto, pintada a óleo, de um jovem rapaz.

Sem se conter, Rosa deu um grito, apontando para a foto:

– É ele. Foi este o rapaz que me deu a carta. Tenho certeza. Ele estava idêntico a esta foto, com as mesmas roupas – ela falava, atropelando as palavras, sem conseguir conter a emoção.

Sem dizer uma palavra, ainda chorando muito, a senhora estendeu a carta ao mordomo. A reação dele não foi diferente. Empalideceu e encostou-se na parede, segurando as lágrimas.

A senhora, ainda em prantos, disse:

– Alfredo, leve esta jovem e lhe dê um lanche reforçado. Está evidente que está faminta. Assim que eu me recompor irei até ela. Quanto a você, minha filha, não tema. Logo entenderá tudo.

Estranhando o tratamento “minha filha”, Rosa acompanhou Alfredo até outro aposento, onde lhe foi servido um lanche reforçado. Percebendo o constrangimento da moça, que não sabia usar os talheres, ele falou:

– Vou deixá-la sozinha para você se alimentar. Fique a vontade e não tenha pressa. Mais tarde a condessa virá falar com você.

Então aquela mulher era uma condessa! O que estava acontecendo? Rosa ficou mais assustada e curiosa ainda, mas sentia tanta fome que no momento só enxergava o chá com biscoitos e os pedaços de bolo à sua frente. Sozinha, comeu até fartar-se, pegando o bolo e os biscoitos com as mãos, ignorando os talheres e segurando a xícara de chá com todo o cuidado, com medo de que se quebrasse. Ela nunca havia tocado em uma porcelana na vida.

Mais de uma hora se passou, quando, visivelmente mais calma, a senhora entrou no aposento. Assentou-se em uma cadeira de palha e chamou Rosa para sentar-se junto dela.

– Minha filha (novamente Rosa arregalou os olhos diante do tratamento)- disse ela em um tom suave de voz. Preste muita atenção na história que vou lhe contar. O meu nome é Constância e meu marido era um duque. Fiquei viúva muito cedo, e criei sozinha o meu filho. Ele era tudo para mim. Talvez por isto, pelo excesso de mimo, tornou-se um jovem inconsequente e sem juízo. Mas era um rapaz de bom coração e um filho amoroso. Ele era a minha vida. Há quatro anos, divertindo-se com amigos em uma de nossas propriedades no campo, caiu do cavalo e quebrou o pescoço, falecendo na hora. A minha vida se acabou naquele dia. Briguei com Deus, perdi a Fé, e nunca mais saí de casa, nem para ir à missa. Tornei-me triste e amarga, dispensei a criadagem e somente Alfredo, que está na família desde a época em que o duque era vivo, insistiu em permanecer comigo. Hoje você restaurou-me a vontade de viver.

Rosa perguntou:

– A senhora vai contratar-me como dama de companhia?

A duquesa, sorrindo, respondeu:

– Você ainda não entendeu. Não tenha medo, mas a foto que você viu na parede é do meu filho Roberto. Leia a carta que me trouxe.

Rosa não sentiu medo, muito pelo contrário. Uma grande serenidade tomou conta de seu ser, quando pegou a carta das mãos da duquesa e leu:

– Minha mãe querida. Não chore mais por mim. Agora eu estou bem. Receba esta moça não como uma criada, mas como uma filha. Ela será para você tudo o que eu não fui. Eu ainda estava perdido, sem entender o que aconteceu, quando a bondade do coração desta menina fez com que ela desse tudo o que tinha, para que eu seguisse o meu caminho. A sua oferta foi a minha salvação. Através de suas orações e da atitude em dar o que tinha por mim, encontrei a luz. Estou bem e feliz. Receba-a com o mesmo amor que me dedicou a vida toda e eu não soube retribuir. Com amor, seu filho, Roberto.

Ao terminar de ler a curta mensagem, Rosa levantou os olhos, que se cruzaram com os da duquesa, e ambas, sem palavras, disseram tudo em um apertado e carinhoso abraço.

A partir daquele dia, a alta sociedade da imponente Vila Rica passou a se escandalizar todas as tardes, com a visão da duquesa em suas roupas da corte, passeando de braços dados com uma jovem negra, igualmente vestida, com os negros cabelos presos em um coque e uma altivez digna de qualquer dama da cidade. Escandalizavam-se e calavam-se. Não mais mudavam de calçada quando Rosa passava, bem vestida e penteada, de braços dados com sua madrinha ou sozinha, pelas ruas e becos da cidade. E a jovem, com um sorriso de pura felicidade, fazia questão de cumprimentar a todos, inclusive as mucamas, com a mesma reverência com que fora saudada um dia, pelo jovem Roberto, na matriz do Pilar.

A duquesa voltou a freqüentar a missa aos domingos, e ela e Rosa eram sempre as primeiras a chegar. Entravam e se assentavam no primeiro banco, ao lado das mesmas famílias que, meses atrás, evitavam a moça. Ela não guardava mágoa. Em seu coração não havia lugar para este sentimento. Alma não tem cor ou vestes e ela enxergava as pessoas com a alma.

Assim aquelas duas almas se encontraram. Uma duquesa de pele alva e grande fortuna, que sempre ali morou, e uma ex escrava de pele negra, que chegou àquela terra com apenas uma trouxa de roupas surradas e uma moeda de prata. Através da salvação do filho da duquesa, ensinaram uma lição que permaneceria até o fim dos tempos naquela cidade. Os que se escandalizavam e se calavam jamais entenderiam. Mas quem precisa deles?

 

 

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11 Comments

  1. Wagner Fontenelle Pessôa 28/03/2019 em 22:01 - Responder

    Uma bela e tocante narrativa, que mantém o leitor conectado ao enredo e curioso pelo seu final. O que, vindo dessa autora, não chega a ser surpreendente, para quem, como eu, está habituado a ler e aplaudir os textos que nascem de sua pena. Parabéns!

    • Valdete 31/03/2019 em 03:47 - Responder

      Que maravilha, Wagner! Obrigada. Como eu também não perco um texto seu, suas palavras me deixam muito feliz.

  2. Jaqueline Matias 29/03/2019 em 08:18 - Responder

    Muito tocante…parabéns pelo inspirador e emocionante conto….sucesso!

    • Valdete 31/03/2019 em 03:50 - Responder

      Obrigada, Jaque. Espero que tenha te apresentando mais um pouco da nossa Ouro Preto.

  3. Giselle 29/03/2019 em 18:59 - Responder

    Excelente, quanto tempo não lia um conto tão bom, com.uma história tão inspiradora.

  4. Giselle 29/03/2019 em 19:07 - Responder

    Conto execelente, daquelas histórias boas de se ler, do tipo que só encontramos nos livros mais antigos.

    • Valdete 31/03/2019 em 03:52 - Responder

      Obrigada, Giselle. Em um mundo onde as pessoas têm cada vez mais preguiça de ler, suas palavras são um grande incentivo. Grande abraço.

  5. Roberto dos Santos 30/03/2019 em 15:10 - Responder

    Magnifico!
    E eu fui lendo querendo saber no que ia dar a história. Depois descobrir que o jovem rapaz que entrou na igreja após a missa se chamava Roberto foi o máximo!
    Ao final de tudo ver que essa magia inexplicável que envolve Ouro preto ganhou vida nas palavras da grande Valdete Braga.
    Simplesmente Magnific6o.

  6. Cláudia 30/03/2019 em 15:27 - Responder

    Minha querida amiga, que lindo conto. Fiquei emocionada e feliz com o final. Almas afins que se reencontram para dar novos rumos a vida terrena. Obrigada por compartilhar conosco tão belas e inspiradoras palavras. Seu trabalho me enche de alegria, sempre! Um Forte(s) e fraterno abraço

  7. Edinei Almeida 15/04/2019 em 17:20 - Responder

    As crônicas/contos da Valdete são sempre maravilhosas. Parabéns por mais um trabalho muito interessante!

  8. Edinei Almeida 15/04/2019 em 17:22 - Responder

    As crônicas/contos da Valdete são sempre maravilhosas. Parabéns, Valdete, por mais um belo trabalho.

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Leia o conto “A Salvação”, da escritora ouro-pretana Valdete Braga2019-07-03T22:42:06-03:00

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