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Um Rei para todos

Ouro-pretano fala da trajetória de Harald V, do legado de inclusão, união, acolhimento na Noruega, onde mora há 23 anos.
Publicado em Colunas
Data de publicação: 30/09/2026 19:07
Última atualização: 30/09/2026 19:26
Visita de Estado do presidente Lula à Noruega, em setembro de 2007. Foto: Bruno Figueiredo/Sigrid Winther.
Visita de Estado do presidente Lula à Noruega, em setembro de 2007. Foto: Bruno Figueiredo/Sigrid Winther.

Vinte e uma salvas de canhão! Lentas e pesadas pisadas de dezenas de soldados quebravam o gorjear dos corvos alvinegros presentes nas trêmulas árvores do parque. Iniciavam-se a tarde de 09/09/2026 e o outono. Em frente ao Palácio Real de Oslo, cuja escadaria frontal havia se transformado praticamente em uma montanha de flores e dedicatórias, cada passo era dado como por alguém que segura o choro. Uma árdua marcha ao longo de ruas repletas de bandeiras e soldados enfileirados durante todo o trajeto de quase 1,5 km do palácio à catedral, puxada pelas salvas de canhão a cada trinta segundos e pela banda da Guarda Real, que tocava a marcha fúnebre de Ole Olsen.

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Foto: Bruno Figueiredo/Sigrid Winther

Horas mais tarde, bandeiras mantidas a meio-mastro durante doze dias, de repente, se veem hasteadas até o topo. Um novo rei de cinquenta e três anos deixa a igreja da Fortaleza Medieval de Akershus, no antigo centro de Oslo, e, uma hora mais tarde, saúda todos os súditos presentes da sacada de um dos mais humildes palácios europeus, acompanhado de sua própria família real — entre eles, a nova princesa herdeira da coroa, Ingrid Alexandra, e a rainha-mãe Sonja, que, ao subir, momentos depois, foi ovacionada com tamanha e calorosa intensidade que seus cansados e úmidos olhos reagiram com um brilho de gratidão e acolhimento.

Assim terminaram as cinco horas de cerimônia de sepultamento do rei Harald V. Afinal, era amado pelas crianças do país como uma espécie de vovô que, impecavelmente, todo ano — fizesse chuva ou fizesse sol, estivesse doente ou não —, sempre subia à sacada de seu palácio e distribuía, durante horas, tchauzinhos e olhares carinhosos a todos os alunos das escolas da capital durante a celebração do Dia Nacional. Era o monarca mais idoso da Europa, respeitado por sua personalidade serena e marcada por um contagiante senso de humor e humildade.

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Foto: Bruno Figueiredo/Sigrid Winther

O laço entre os monarcas escandinavos nunca fora tão forte como nestes últimos 35 anos em que ele governou, segundo artigo do canal estatal NRK. O rei sueco e o rei dinamarquês caminharam lado a lado com o novo rei, Haakon VIII, da Catedral de Oslo até o sarcófago da família real. Não há somente um elo cultural e linguístico entre esses três monarcas, mas também um certo grau de parentesco. Afinal, o falecido rei norueguês é filho de pai dinamarquês e mãe sueca. Estranho? Sim. Realmente é raro na Europa de hoje que um rei não seja um cidadão de etnia nacional, segundo definição da própria Agência Central de Estatísticas da Noruega (SSB).

Harald V era um cidadão norueguês, nascido na Noruega, mas filho de imigrantes. E disso ele tinha orgulho. Tamanho era o orgulho que tanto noruegueses quanto imigrantes, conservadores ou progressistas, socialistas ou neoliberais, todos viam nele alguém que os representava e que os unia, apesar de suas diferenças. Era um rei que incluía. Um rei para todos!

Entre tantas palavras de seus discursos, as que mais marcaram o seu reinado foram estas, proferidas há precisos dez anos:

“Os noruegueses são como aqueles da região de Trondheim, imigrantes, acreditam em Deus e em Alá, e gostam de Grieg e de Kygo (um músico do gênero eletrônico da Noruega). Os noruegueses são garotas que amam garotas, garotos que amam garotos, e garotas e garotos que se amam. Os noruegueses acreditam em Deus, em Alá, no Todo e no Nada” (Aftenposten).

Para compreender como um rei, filho de pais estrangeiros, pôde ser tão querido, voltemos no tempo até a era dos vikings, há um milênio. Aqueles que construíram velozes e longos barcos e gritavam: “RO!”… “RO!”… “RO!”. Conquistaram não somente as terras da Inglaterra e colonizaram a Islândia e a Groenlândia, como também descobriram o que chamaram de “Vinland”, um sítio na parte nordeste da América do Norte, quinhentos anos antes de Colombo. Esse tempo épico, de 800 a 1200, descrito em fontes como as sagas do islandês Snorre, foi infelizmente arruinado no século seguinte com a perda de dois terços de sua população e de sua independência, como efeito direto da Peste Negra de 1348 a 1350. Desde essa pandemia até as Guerras Napoleônicas, o país esteve submetido ao rei dinamarquês e, de 1814 a 1905, foi dominado pelos suecos.

Diante desse contexto, o sangue real da família norueguesa infelizmente se perdeu ao longo da história. A monarquia só poderia ser restaurada nesse novo projeto de país independente caso um rei fosse adotado já adulto. Eis que a nova assembleia nacional optou por realizar um plebiscito e convidar um príncipe dinamarquês, então casado com uma princesa inglesa, para serem seus novos monarcas. Traziam consigo, no colo, uma criança de dois anos: o futuro rei Olav V, que se casaria no porvir com a princesa Märtha da Suécia, pais do rei Harald V.

Por tudo isso, o legado de Sua Majestade Harald V termina com um sentimento especial de gratidão por sua dedicação em unir seu povo em torno de uma instituição politicamente neutra, que é a família real. Num mundo polarizado por retóricas extremas que mal dialogam e encontram pouco consenso, as semanas de luto nacional uniram monarquistas e republicanos, noruegueses e imigrantes — todos em agradecimento ao trabalho do rei, que, nos últimos meses, seguia ativo em sua função real.

Interrompeu suas férias para receber e cumprimentar, um por um, todos os jogadores da seleção masculina de futebol ao retornarem da Copa do Mundo, em grandiosa festa em frente ao palácio. Além disso, no último dia 22 de julho, participou de uma cerimônia religiosa para marcar os quinze anos do atentado terrorista em Utøya e ao prédio do Poder Executivo, em 2011. Em seu último mês de vida, ele também realizava uma série de viagens com o objetivo de visitar os últimos municípios noruegueses. Faltavam-lhe apenas quatro municípios para completar todo o mapa — uma marca impressionante — quando foi internado, no dia 17 de agosto, vindo a falecer no dia 28 do mesmo mês, aos 89 anos de idade.

Como imigrante e cidadão da Noruega há vinte e três anos, tive a vergonha de não entender muito de etiqueta e cometer uma gafe ao cumprimentar o rei com um aperto de mãos. Era uma visita de Estado do presidente Lula à Noruega, em setembro de 2007, organizada pela Embaixada do Brasil em Oslo. Num momento em que o presidente brasileiro começou a cumprimentar e abraçar o público brasileiro, estiquei o braço ao rei, que estava passivo e distante de todos — o que é proibido pelos bons costumes.

E pronto: isso desencadeou um efeito em que ele, além de apertar a minha mão, prosseguiu fazendo o mesmo e cumprimentou todos ali presentes. Mais um exemplo de um rei que deixou os dogmas monárquicos e as formalidades de lado para se adaptar e atender àquele público de súditos brasileiros acostumados às informalidades. Nós nos sentimos vistos e aceitos como éramos, o que significa muito mais para um povo do que ser somente representado.

Um viva à eterna memória do nosso querido e amado rei Harald V!

Fontes indicadas pelo autor


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