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“Quando os algoritmos começam a decidir por nós”, por Emilio Moreno Plascencia

“Finanças para todos”: Leia o novo artigo do colunista mexicano.
Publicado em Colunas
Data de publicação: 04/09/2025 16:12
Última atualização: 17/03/2026 11:58
Foto — Emilio Moreno Plascencia. Crédito — Reprodução.
Foto — Emilio Moreno Plascencia. Crédito — Reprodução.

Há alguns meses, o Banco de Compensações Internacionais lançou um alerta que passou quase despercebido: os bancos centrais deveriam se preparar para o impacto profundo da inteligência artificial na economia e no sistema financeiro, não apenas adotando essa tecnologia em suas próprias operações, mas antecipando seus efeitos transformadores sobre inflação, produtividade e estabilidade do sistema. Não é apenas um aviso institucional. É o reconhecimento de que o ritmo silencioso dessa revolução já está mudando o pulso da economia global.

Essa transformação não é inédita na história, mas assume ingredientes inéditos. Pense nos teares mecânicos que emergiram na Inglaterra: eles não só redesenharam a produção, como deram forma a cidades, profissões e disputas políticas por décadas. O que está diante de nós agora é diferente. Não se trata apenas de trocar fibra por engrenagem, mas de delegar a inteligência — a decisão — a sistemas que aprendem, calculam e agem em velocidade superior à compreensão humana.

Os sinais já estão aqui, ainda que nem sempre visíveis. Hoje, quase 80% dos bancos já implementam projetos de inteligência artificial para acelerar operações, melhorar o atendimento e reduzir riscos. Fundos geridos de forma quase autônoma movimentam bilhões de dólares e já influenciam a volatilidade de moedas e ativos. Um erro nesses sistemas poderia desencadear um caos financeiro em segundos. Ao mesmo tempo, seu potencial é inegável: crédito para regiões antes esquecidas, modelos de previsão climática que orientam a transição energética, eficiência em transações que antes levariam dias.

O dilema é estrutural. Instituições feitas para operar com cautela e ponderação — bancos, governos, reguladores — agora convivem com sistemas que funcionam em microssegundos e sem emoção. A questão incômoda é se nossas instituições, desenhadas para um mundo analógico, conseguirão adaptar-se a essa nova velocidade antes que a própria velocidade decida por elas.

Imaginemos um 2030 em que boa parte das transações — de financiamento a setores emergentes, da alocação de crédito à dinâmica de investimento — ocorra sob a batuta de sistemas autônomos. A história mostra que cada avanço tecnológico se acompanha de tensões políticas, sociais e éticas que não se resolvem num clique. Será que estamos preparados para dialogar com essa nova forma de inteligência antes que ela decida por nós?

As reações dos atores-chave revelam muito. Bancos centrais estudam como incorporar a inteligência artificial às suas funções de previsão e gestão de risco. Empresas aceleram a adoção da tecnologia para detectar fraudes, avaliar crédito e melhorar a comunicação com investidores. A sociedade observa, muitas vezes em silêncio, como quem presencia um oceano que avança sem alarde. É só depois que a maré recua que percebemos que ela estava mais alta do que imaginávamos.

Talvez o risco maior não resida na inteligência artificial em si, mas na rapidez com que a deixamos entrar antes de nos perguntarmos: o que queremos realmente construir com ela? Este avanço está desenhando um novo coração para a economia global — e, talvez, só no futuro compreenderemos quão profundamente esse pulso mudou enquanto ainda refletíamos se era apenas mais um avanço tecnológico ou algo verdadeiramente transformador.

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