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Prosa na Janela: Leia ‘Lua de Ouro preto, um plano de amor’, por Roberto dos Santos

Leia mais uma contribuição inédita de Roberto dos Santos para o JVA.
Publicado em Prosa na Janela
Data de publicação: 06/01/2026 11:11
Última atualização: 06/01/2026 11:11
A escrita de Roberto dos Santos. colunista cativo do JVA, transita entre a prosa, o conto e a crônica. Crédito – Arquivo pessoal.
A escrita de Roberto dos Santos. colunista cativo do JVA, transita entre a prosa, o conto e a crônica. Crédito – Arquivo pessoal.

A noite tinha acabado de chegar na bela cidade de Ouro Preto, esse cantinho especial de Minas Gerais, repleta de maravilhas que encantam os olhares mais sensíveis.  

A lua discreta, suave e silenciosa observava do alto toda essa beleza. Em alguns momentos seu brilho acrescentava ao barroco mineiro momentos únicos, proporcionando um espetáculo de luz e exuberância, tudo muito metódico e sem alarde.

Aquiles conseguia perceber tudo isso, pois caminhava vagarosamente atento aos detalhes contidos na estupenda cidade que ele sonhava conhecer.

Um homem de sensibilidade aguçada que foi conhecer Ouro Preto, intentando vivenciar suas surpresas e magias.

Após passar ao lado do Santuário de Nossa Senhora da Conceição, vindo da Rua Bernardo de Vasconcelos, parou na Praça Antônio Dias, olhou para os lados e decidiu seguir rumo a Rua da Conceição, cruzando a centenária ponte, e chegando ao largo Marilia de Dirceu. De novo parou, pensou e seguiu a rua Bárbara Heliodora, à direita do largo Marilia de Dirceu.

Lá do alto a lua singela e bela parecia guiá-lo ou segui-lo. Impulsivamente ele perseguia o clarão projetado nas paredes e telhados dos casarões, não era uma luz incandescente, mas com brilho suficiente para aflorar o desejo de seguir na direção da claridade.

Quando chegou onde a rua Bárbara Heliodora se encontra com a rua Coronel Serafim, já tendendo seu corpo para a esquerda, adentrou alguns passos na rua. Ao sentir um vento suave e constante, voltou sua cabeça para a direita (direção do vento) tentando entender a brisa repentina, mas não tinha nada de diferente naquela rua que justificasse a passagem daquele frescor que lhe arrepiou por inteiro, exceto um vulto com contornos humanos que lhe prendera olhar. Era Daphne uma moradora do Bairro que transitava pela rua em direção a sua casa que ficava não muito longe dali. Em poucos segundos ela passou exatamente no ponto onde ele estava, Aquiles impulsivamente cumprimentou a Daphne perguntando na sequência se ela morava ali. Ela sorriu e respondeu que sim. Aquele sorriso o estremeceu a ponto de ele esquecer a pergunta que iria fazer na sequência, contudo para manter o diálogo ativo, disse a ela que saiu andando e não sabia onde aquela rua ia levá-lo.

Daphne então deixou desmanchar dentro dela o receio de que aquele homem pudesse lhe fazer algum mal, certezas ela não tinha, mas algo inexplicável a fez sentir assim.

Daphne então, sem receio algum, informou a Aquiles que se mantivesse na via principal, acessaria lá na frente à rua que dava acesso à igreja de Santa Efigênia. E se prontificou a caminhar com ele até a subida da Ladeira Santa Efigênia, lá viraria à esquerda e seguiria em direção a sua casa.

Assim o fizeram caminhando bem devagar, sem medo da noite e com os passos iluminados pela luz da lua, que naquele momento estava mais intenso. Embora tivessem se conhecido a menos de trinta minutos, pareciam se conhecerem a muito mais tempo.

Aquiles estava bem à vontade e tranquilo na companhia de Daphne, ela também não o via como uma potencial ameaça, por isso caminhava desprovida de qualquer temor.  Já fazia alguns minutos que andavam juntos, a rua Coronel Serafim já havia ficado para trás, após uma curva ela findava e começava a rua Barão do Rio Branco. Quando chegaram no final da citada rua, Aquiles notou um forte brilho incidindo sobre um ponto da rua, era um pequeno oratório na parte superior de um muro de pedra e dentro dele uma imagem de santo. Daphne sintetizou a história para Aquiles, relatando toda a dinâmica dos acontecimentos, sem esquecer os relatos que davam conta do uso da imagem para interceptar os carregamentos de ouro da Coroa Portuguesa.

Aquiles viu nesse vulto da história ouro-pretana mais uma oportunidade de ficar mais tempo com Daphne, que também estava na mesma sintonia.

Depois de conversarem bastante, adentraram a rua Santa Efigênia, parando no pé da ladeira. Naquele ponto Daphne explicou para Aquiles onde ficava a igreja de Santa Efigênia, apontando para ele a ladeira que terminava da igreja matriz. Ela iria entrar à esquerda na Rua Dr João Veloso em direção a sua casa.

Antes de se separarem, Aquiles perguntou a Daphne se ela poderia ir com ele na Mina de Chico Rei no domingo seguinte, e ela concordou. Ele não subiu a ladeira Santa Efigênia, preferiu acompanhar Daphne até a porta da sua casa, depois pediu um táxi e foi para a pousada onde estava hospedado.

Já em seu quarto ficou pensando nas suas andanças pela cidade, na lua de Ouro Preto, seguindo ou guiando pela cidade parecendo querer levá-lo a algum lugar, ainda sem sono dirigiu-se a sacada da pousada, olhou para cima e lá estava a lua belíssima a olhar para ele, ao contemplá-la, reviveu todos os acontecimentos que o fez conhecer a bela Daphne.

Envolto num silêncio contemplativo, perguntou a lua se foi intenção dela conduzi-lo ao encontro de Daphne. A pergunta ficou no ar e ele foi dormir.

O domingo chegou e os dois foram para a Mina de Chico Rei, de mãos dadas entraram juntos pelos corredores de pedra onde no passado foram extraídos muitos quilos de ouro. Daphne ainda dentro da Mina confessou que tinha medo de lugares confinados, Aquiles sorriu e disse que também tinha pavor.

Daphne então perguntou porque ele quis ir lá, e a resposta lhe trouxe uma explosão de alegria. Aquiles confessou que era sua segunda noite na cidade, e não conhecia nada, como havia visto uma placa em um poste indicando a Mina, fez o convite como forma de não deixar passar a oportunidade de estar com ela, seu medo havia ficado em segundo plano, sufocado em algum lugar dentro dele.

A coragem dos dois em vencer seus medos estava um no outro, já que as mãos estavam entrelaçadas.

Ao saírem da Mina, foram almoçar juntos e a noite foram para a praça Tiradentes conversar e tomar um sorvete.

A lua brilhava como os dias anteriores, e Aquiles não perdeu a oportunidade de dizer a ela sobre a lua, dona da mais clara claridade.

— E se eu te dissesse que a lua me conduziu até você, acreditaria?

E ela respondeu:

— Claro que sim, quando nos encontramos, eu havia parado no início da rua, e lá fiquei por uns trinta minutos a contemplá-la, dizia que estava linda e ainda a chamei de “a lua dos namorados”. Quem sabe a intenção dela era me entreter para dar tempo de você chegar aqui.

E Aquiles disse:

— Inclusive aquela brisa suave que me fez olhar para você, devia estar atendendo a uma solicitação da lua que tinha em curso um ousado plano de amor para nós.

E Aquiles perguntou:

—Você falava com a lua sobre amor?

E Daphne respondeu:

— Sim. Dizia de como seria bom, olhar para ela (lua), contemplá-la juntamente com o amor da minha vida.

E Aquiles concluiu juntamente com Daphne que tudo era culpa da lua de Ouro Preto, no bom sentido, é claro.

Naquela noite enluarada a praça Tiradentes foi palco da concretização de mais uma história de amor em Ouro Preto. Embora houvesse muitas pessoas a caminhar pelo perímetro da famosa praça, apenas a lua sabia o que estava acontecendo entre Aquiles e Daphne. E nunca mais deixaram um ao outro, vivendo uma pomposa história de amor.

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