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Prosa na Janela: “Ensaios a meia-noite”, por Roberto dos Santos

"Dentro desse cenário de “belezas” uma bela mulher se destacou e chamou a atenção de Isaac. Não foi nada premeditado, simplesmente um relance que culminou numa explosão de sentimentos."

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Por Roberto dos Santos Publicado em 03/04/2023, 17:51 - Atualizado em 03/04/2023, 17:51
Roberto Santos, 49 anos, nascido em Dores de Guanhães, chegou ao Distrito Ouro-pretano de Antonio Pereira em 1979. É porteiro na Universidade Federal de Ouro Preto – UFOP e tem uma sensibilidade peculiar na apresentação de seus textos. É casado com Márcia, que é a aguerrida diretora da Escola Municipal Alfredo Baeta e têm o filho Antônio, de 15 anos. Siga no Google News

Eu não sabia que era amor aquilo que ardia meu peito, uma dor que não é dor, calafrios sem razão de ser, sorrisos perdidos na noite, lembranças de um olhar infindo, pensamentos que desenhavam você.

A saudade me consumia, a sua ausência me desbaratinava, o inexplicável habitava em mim, eu não sabia que era amor.

Palavras ditas por Isaac de Frente ao espelho, ensaiando se declarar a Isabelle a morena dos cabelos pretos e olhos de jabuticaba. Mulher que ele conheceu quando mergulhava nas águas da cachoeira da pedreira situada no distrito de Antônio Pereira município de Ouro Preto, a mais ou menos 25 quilômetros da sede do Município.

Uma comunidade entre as montanhas de Minas, um lugar cheio de “belezas” inclusive as oriundas da natureza, pura bondade do criador.

Dentro desse cenário de “belezas” uma bela mulher se destacou e chamou a atenção de Isaac. Não foi nada premeditado, simplesmente um relance que culminou numa explosão de sentimentos.

A cachoeira estava cheia de gente se banhando, as águas frias e límpidas além do frescor característico, dava aos banhistas um som melódico ao tocar as paredes rochosas circundantes.

Bastou alguns segundos para que o dia de Isaac se transformasse. Do meio das águas surgiu Isabelle, os cabelos molhados e as gotículas de água escorregando pelo seu corpo moreno, foi a primeira coisa que atraiu seu olhar. Ainda no mesmo ato, os olhares se cruzaram e algo que a ciência não pode explicar aconteceu num piscar de olhos.

A magia do olhar de Isabelle se entrelaçou ao inexplicável do olhar de Isaac e mesmo discretos sem que ninguém atentasse pelo que estava acontecendo nascia ali um grande amor.

Isabelle saiu da água e foi para a parte alta onde um filete de sol incidia sobre o local como que um canhão de luz.

Isaac não estava preocupado se alguém pudesse fazer a leitura do que estava acontecendo e olhava para Isabelle sem medo algum. Ela por outro lado tinha dentro dela o imenso desejo de saber quem era aquele homem, e constantemente desviava o olhar na direção dele, porém com cuidado. Aquele ato de desviar o olhar, tentar novamente, ver e tentar evitar, aumentava ainda mais o envolvimento entre os dois. Isabelle era detentora um charme único quando fazia esses movimentos de olhar de forma discreta evitando ser percebida. Isaac falava para si mesmo como era linda aquela mulher. Mas o fato era que ele havia se prendido a ela não apenas pelos atributos físicos, mas também pelos inexplicáveis do amor. Claro que ela era linda, isso era notório e os efeitos da água da cachoeira no corpo dela evidenciava ainda mais toda a sua atmosfera de beleza. 

Isaac não morava em Antônio Pereira, a única explicação por estar na cachoeira era ter descoberto essa beleza natural através dos amigos que moravam na localidade e que conheceu trabalhando a mineração.

Ele ficou confuso quando isabelle deu pinta de que ia embora, ficou imaginado como faria para abordar a mulher que lhe provocara encanto. Mas ela o confundiu de novo ao começar o trajeto da descida de mãos dadas com uma adolescente. Passou muitas coisas na cabeça Isaac, poderia ser filha, irmã, sobrinha, porém a incerteza o fez tomar precauções que ele não contava. Pensava numa abordagem mais direta, como encontrar o momento propicio e iniciar sua investida sobre Isabelle.

Então ele resolveu seguir a distância e para ver se alguma coisa acontecia que pudesse tirar essa insegurança dele.

Mas Isabelle percebeu que estava sendo seguida, e não entrou em casa, pois não tinha certeza das intenções do homem. Passou direto caminhando pela rua Beco Novo e parou em frente uma igreja histórica que fica bem no início do distrito. Era conhecida pelos moradores como igreja queimada. Ela sentiu-se segura devido haver outras pessoas nas imediações.

 Quando Isaac chegou próximo a ela, a cumprimentou com toda tranquilidade, ela ficou mais tranquila, porém uma pontinha de medo ainda povoava sua mente. Afinal ela não sabia nada do homem da cachoeira.

Olhando para o monumento tricentenário, ele pronunciou algumas palavras.

- Linda demais!

Isabelle respondeu:

– Linda mesmo!

Na verdade, Isaac falava dela, mas deixou que pensasse que estava falando da igreja. Enquanto isso a adolescente sem perceber que algo fora do comum acontecia, não viu nada demais no diálogo a pouco empreendido.

Isaac estava de frente a porta central da igreja observando as pedras monstruosas e imaginado como foram para ali, ao mesmo tempo que pensava uma forma de aprofundar no diálogo com Isabelle.

Tirou o celular do bolso e pediu a isabelle que tirasse uma foto dele em frente à igreja. Mas a grande jogada viria a seguir.

– Pode ser você ou sua filha? Disse Isaac a mulher.

Ela sorriu e logo respondeu:

– Não é minha filha, é minha neta.

Desculpe, tão jovem e já vovó (risos), disse Isaac.

Isabelle então disse sorrindo e lisonjeada pelo comentário:

– Casei nova, tive filhos nova também, hoje não estou mais casada, mas estou feliz convivendo com meus filhos, tenho mais dois.

E Isaac que pensou em tirar uma foto como pretexto para saber se Isabelle era casada, acabou ficando sabendo muito mais do que esperava.

Mas ele percebeu que Isabelle não estava tão à vontade assim e não aprofundou a conversa a ponto de chegar num possível encontro ou um pedido de namoro.

Então disse a ela olhando nos olhos:

Obrigado pela hospitalidade e pela sua alegria, quando eu chegar a Ouro Preto, vou dizer a todos que os moradores de Antônio Pereira são pessoas gentis e agradáveis. 

Ele então se despediu e começou a caminhar adentrando de novo a rua Beco Novo.

– Vai voltar a cachoeira? Perguntou Isabelle.

– Meu carro ficou lá no final da rua, disse Isaac.

Ela então pediu que a esperasse, e juntamente com sua neta disse a ele que iriam juntos até chegar à casa dela. Ele foi tomado por calafrios dos pés à cabeça. Aquele foi o acontecimento mais importante do seu dia. Notou imediatamente que havia conquistado a confiança dela e seguiram juntos, os três até ela dizer que havia chegado a casa dela.

Antes de se despedir ele apenas lembrou que precisava voltar outro dia por que havia esquecido de tirar a foto.

– Não tiramos a foto na porta da igreja que estávamos prestes a tirar, mas não tem problema faço num outro momento. Da próxima vez que vier banhar-me na cachoeira faço isso. Isabelle se ofereceu para ajuda-lo no clique e assim marcaram para o final de semana seguinte para encontrar-se na cachoeira e posteriormente dirigir-se a igreja queimada para tirar a tão falada foto.

Isaac se despediu e foi embora:

Em todos os dias da semana que seguiram, ele se dirigia ao espelho de seu quarto em seu apartamento em Ouro Preto a meia noite e ensaiava como iria se declarar a Isabelle.

No primeiro dia de ensaios ele fez da seguinte forma:

– Isabelle você é linda demais. Desde o momento em que emergiu das águas da cachoeira eu me apaixonei por você. Não resisti a seus cabelos molhados, e aos pingos d’água escorregando pela sua pele morena, não resisti a sua pele arrepiada pelo contato com a água fria. Depois disso diante da igreja queimada eu prestei ainda mais atenção em você. E discretamente sem que ninguém percebesse eu olhei seu narizinho lindo, seus ombros ora alinhados demonstrando altivez, ora relaxados soltos dando leveza a seu existir.  A delicadeza da sua boca envolta por um sorriso encantador. E por fim, você por inteiro, me encantando simplesmente por existir. E eu nem a conhecia direito.

E assim Isaac ensaiou por uma semana para encontrar com Isabelle e dizer que a amava.

Chegou então o domingo seguinte, aquele marcado para o encontro. E na hora marcada se encontraram na cachoeira para se refrescarem e depois tirar a foto que ficou pendente no largo da igreja queimada no dia em que se conheceram.

Após saírem da água caminharam em direção a igreja queimada.

Alguns minutos depois chegaram a um ponto curioso da Rua Beco Novo. Era uma pedra que se curvava sobre a rua dando uma gostosa sensação.

Os moradores do entorno fizeram um jardim no local, o que deu certo grau de beleza.

Chegando nesse ponto Isaac pediu para parar só um pouquinho. E ficou a olhara para o alto, curtindo as imagens que via. Enquanto olhava para cima algo caiu em seu olho, poeira, um cisco, não se sabe o que foi, porém isabelle rapidamente foi ajuda-lo

Ela cuidadosamente assoprou o olho de Isaac, perguntando a todo momento se ele estava bem.

Ele com os olhos vermelhos institivamente levou a sua mão ao rosto dela e fez um carinho. Ela acolheu esse carinho fechando os olhos. Ele então suavemente uniu seus lábios aos dela e num beijo silencioso selou para sempre o amor dos dois. Como testemunha tinha algumas pessoas da rua ao longe, e a pedra sob a estrada.

Antes de saírem dali, depois do beijo e do longo abraço, Isaac pediu Isabelle em namoro e ela num sorriso respondeu que sim e dali em diante não mais se desgrudaram.

Os ensaios a meia noite de nada adiantaram, ele pensou uma coisa aconteceu outra, porém seu desejo se tornou realidade.

A foto foi tirada, outros encontros aconteceram, Isaac e Isabelle diziam que se amavam todos os dias, o namoro caminhava para um futuro juntos e os dois eram puro amor.

Um Comentário

  1. Wanderléia 04/04/2023 em 08:04- Responder

    texto maravilhoso 😍 adoro

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