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Prosa na Janela: Leia “Esquina do Amor”, por Roberto dos Santos

Leia mais uma colaboração inédita de Roberto dos Santos para o JVA.
Publicado em Colunas, Prosa na Janela
Data de publicação: 10/09/2026 15:15
Última atualização: 10/09/2026 15:32
Ilustração conceitual gerada por inteligência artificial
Ilustração conceitual gerada por inteligência artificial

Ana Rosa caminhava pelas ladeiras de Ouro Preto como quem percorria as linhas de um poema antigo, seu existir já era um gostoso poema de amor. Seus passos lentos, cadenciados, deslizavam pelas calçadas de pedras irregulares, como se aquelas ruas fossem passarelas traçadas exclusivamente para ela, ao seu redor tudo tinha contornos da antiguidade.

Ana Rosa amava caminhar pela belíssima cidade de Ouro Preto, lugar onde morava desde o seu nascimento, um cantinho de Minas Gerais envolto por montanhas e vistas indescritíveis. Ela amava se esgueirar pelas ruas apertadas e charmosas da cidade, a cada passagem descobria algo novo.

Lá pelos idos dos anos noventa, a ouro-pretana de alma, sangue e coração, estava na esquina onde rua dos Paulistas se encontra com rua Bernardo de Vasconcelos, no bairro de Antônio Dias, parte central da cidade, bem embaixo do Oratório que no seu interior tinha imagem Nossa Senhora do Bonsucesso, a razão de estar ali foi uma visão magnifica que sua sensibilidade lhe ocasionou perceber.

Inicialmente a ideia era descer a rua Bernardo Vasconcelos e comprar pão em um mercadinho lá existente, era hora do café da tarde. Mas o sol chamou a atenção dela ao proporcionar um lindo espetáculo, bem à sua frente. A rua ficou dividida lindamente, com a metade esquerda com sol e a metade direita ficando a sombra. Ela não resistiu e ficou a contemplar tamanha beleza.

Do outro lado da rua uma voz masculina dizia palavras, como: linda, maravilhosa, estonteante. Ana Rosa olhou para ver e se deparou com um homem a olhar para ela. Pensando que ele falava do oratório sob a cabeça dela, sorriu e sem alongar desceu para buscar o pão. Depois de alguns passos, já diante dele Ana Rosa disse  que aquele oratório era mesmo belíssimo, mas para sua surpresa o moço disse que não estava falando do oratório. Ela então o falou:

__ Ah! Estava falando da composição geral do espaço a nossa volta né! Você tem razão é tudo muito bonito.

Mas o moço insistiu em dizer que não era sobre essas coisas que falava, ao proferir palavras tão belas. E disse:

____ Estava falando de você. Os adjetivos que usei qualificavam a sua imagem, eu tentei descrever o que eu via dentre todas as outras belezas.

Enquanto Ana Rosa com a face ruborizada, administrava uma revolução dentro dela, o moço pedia desculpas e dizia que se chamava Joaquim Miguel.

E nesse ato simples de só olhar, Ana Rosa exprimiu sua essência, ficando Joaquim Miguel cativo dessa presença. Não foram palavras, nem gesto, nem voz, mas um silêncio que falou profundo.

Joaquim Miguel não lhe pediu nada. Apenas esteve ali, e nesse estar, Ana Rosa reconheceu algo que há muito desconhecia: a permissão de ser vista. A possibilidade de ser amada não pelo que dizia, mas pelo que era.

Foram olhares que se encontraram no meio do caminho, e no final terminaram no mesmo lugar: onde o tempo não pressa, onde a palavra não precisa, onde só existe o que sempre houve entre dois corações que se reconheceram. Onde está o amor.

E assim, entre as ladeiras de pedra e os sinos que dobram ao entardecer, Ana Rosa e Joaquim Miguel escolheram escrever juntos o próximo capítulo de sua história. Não haveria partida, nem fuga, nem promessa de outro chão, apenas a certeza de que o amor, quando verdadeiro, encontra seu lar onde dois corações decidem permanecer. Em Ouro Preto, cidade que os viu nascer um para o outro, construiriam dias simples, feitos de olhares compartilhados, silêncios compreendidos e o calor de uma vida inteira a dois, sob o mesmo céu que testemunhou o início de tudo.

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