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A IA afinou a nota: Mas onde termina o prompt e começa o artista?

A IA simula a técnica, mas tem alma? Faça um Quiz exclusivo e descubra: Música Real ou IA?
Data de publicação: 03/02/2026 18:30
Última atualização: 03/02/2026 20:07

Música de IA é realidade e – acredite – não é exatamente um mal. Entenda os prós e contras da tecnologia.

Quem cresceu nos anos 90 ou acompanhou a evolução da música – do boom dos cd’s aos primeiros downloads na internet – vai se lembrar: Por muitos anos, criar música era um processo complexo que, geralmente, começava com uma fita demo e terminava na busca por uma gravadora. De lá até hoje, o processo se tornou completamente outro.

O que começou com os downloads, compartilhamento de arquivos (lembram do e-Mule ou do Kazaa?) e pequenos selos para lançamentos independentes passou pelo surgimento dos serviços de streaming (Spotify, Deezer, Tidal) e chegou, há cerca de dois anos, à música feita por ferramentas de IA.

Mas a pergunta que me fez abordar esse assunto aqui na coluna é: fazer música com IA é, de fato, fazer música. Pois te adianto a resposta: Sim. E antes que você prepare a tocha para queimar o servidor mais próximo, te convido a entender meu ponto de vista e pensarmos juntos sobre os prós e contras do uso de IA para criar música.

Para isso, deixa eu te contar uma história sobre frango com quiabo.

O sabor único exige um bom cozinheiro

frango com quiabo sem uma boz cozinheira é igual música de IA sem um bom prompt

Imagine que você decidiu cozinhar e tem disponível um frango caipira recém-abatido, um quiabo firme e vistoso e uma porção de temperos artesanais. Então, tenta ligar para a sua mãe – sem sucesso – para anotar a receita para reproduzir o prato mais incrível que ela cozinha.

A solução se torna fazer por conta própria, afinal, você não cozinha como ela mas faz o básico todo dia. Contudo, ao ficar pronta, a comida parece faltar algo. Na sua memória, o quiabo babava menos e o frango ficava mais macio. Além disso, o tempero era mais encorpado. De modo geral, está bem feito – e até elogiável – mas não inesquecível. E você sabe o motivo.

A IA na música é o equivalente à essa refeição. Ou seja, ela pode até entregar algo bem feito, mas nunca vai ser memorável. Afinal, ela lida com padrões. Sem um bom cozinheiro para dar dicas como “pingar limão no quiabo enquanto frita o deixa mais sequinho” ou “uma colher de bicabornato amacia melhor o frango”, o preparo é só um entre tantos.

Além disso, não basta ter os melhores temperos. É preciso saber quais – e como – usar cada um. Em resumo, sem a orientação ou o preparo de uma boa cozinheira, fica impossível comer o frango com quiabo e sentir o sabor da saudade de um domingo em família.

CTA pioneirismo Jornal Voz Ativa

O perigo do “miojo musical” e o tsunami de dados

Com isso, quer dizer que o grande problema não é a tecnologia, mas a democratização da preguiça. A meu ver, estamos vivendo a era do “miojo musical”: rápido, fácil, barato, mas desprovido de nutrientes. E os números comprovam esse apetite industrial.

Segundo dados de uma pesquisa da “Music in the air”,estima-se que cerca de 10% a 15% dos novos uploads em plataformas como Spotify e Deezer já venham de IAs. Em números, são mais de 120 mil novas faixas enviadas todos os dias.

Contudo, o que podia ser uma explosão criativa, tornou-se um problema. Tão grande que o próprio Spotify fez uma limpa em 75 milhões de músicas feitas por IA e de baixa qualidade. No caso, a baixa qualidade não se refere à uma opinião pessoal sobre as canções e, sim, faixas duplicadas ou meramente cópias sem autorização de outros artistas.

Ou seja, 75 milhões de cliques no modo automático (alguns, sem nem olhar pela lente).

Homem dirigindo usando IA de GPS para representar o conceito de música para IA

A lógica da colaboração: Onde o humano se torna o diferencial

Dos aprendizados que tive na pós-graduação em IA que finalizei em 2025, uma coisa ficou certa e defendo com unha e dentes: IA é GPS, não piloto automático. Em outras palavras, ela pode facilitar o caminho mas não dirige por você. E isso serve tanto para a IA que cria música quanto a que faz imagens, vídeos ou textos.

Um exemplo prático foi o que vi acontecer na minha área. Há 8 anos sou redator de conteúdo com foco no Google e, no último ano, vi clientes dispensando meus serviços afirmando que por IA ele conseguia produzir em minutos o que eu levava horas.

E ele estava certo, porém, só em certa parte.

E percebeu isso quando, mesmo com uma produção maior, viu sua IA de criação citar como fonte os meus textos.. Ou seja, o uso sem conhecimento tem mais chances de dar visibilidade ao talento de outro que te transformar em um expert em algo.

Música de IA na prática: da ideia a uma canção pronta

Para comprovar minha teoria, levei ao máximo um pedido feito pelo professor como trabalho de conclusão da pós-graduação. Era necessário criar 3 músicas por AÍ mas haviam 3 regras que pesaram na nota final:

1 – Originalidade (ele usaria uma ferramenta para detectar plágio);

2 – Personalização (seria considerado o quanto o produto final se diferenciava do genérico;

3 – Uso de multicanal (o que era possível entregar além das músicas em si).

Assim, comecei usando o conhecimento (mediano) que tenho sobre música. Musiquei no violão um poema autoral e gravei via celular. Busquei ideias em áudios antigos que encontrei do meu irmão (que é músico) tocando guitarra.

Como não sou cantor, precisei criar uma voz que encaixasse na proposta. Após vários ajustes – e inspiração direta de amigos e artistas que gosto, nasceu o personagem que conduziria o trabalho. Dei a ele o nome de Algo Rítmico.

Não irei detalhar conceitos aqui, mas creio que ouvir é melhor que explicar. Assim, cada um pode tirar suas próprias conclusões e opinar. Ou, ainda, me ajudar à responder à seguinte pergunta: feito com a ajuda de IA é o mesmo que feito por IA?

O fetiche humano pelo orgânico (mas depende)

Ao longo de 3 meses, testei um pouco de tudo que envolve o mundo da música e o uso das IAs na criação, produção e distribuição. Com isso, o trabalho da pós acabou com um perfil certificado nas plataformas de streaming, 15 canções musicadas a partir de poemas que escrevi, letras e cifras transcritas no Cifra Club, canal oficial no Youtube (fornecido pela plataforma) e 3 clipes montados também via IA.

Tudo devidamente registrado e validado como autoral.

CTA IA Jornal Voz Ativa

E todo esse processo me fez chegar a algumas conclusões práticas:

1) De modo geral, o problema não está em usar a IA e, sim, no quanto há algum processo criativo nisso. Sem um bom cozinheiro, os ingredientes não farão mágica;

2) IA entrega padrões e estatísticas. Sem alguém para colocar intenção – é interpretar isso – se  tem, no máximo, um fast food. Jamais uma comida como a de mãe;

3) Por regra, somos resistentes às novidades mas, como dizia Belchior, podemos até amar o passado mas o novo sempre vem. Mais dócil com quem se mostra aberto a aprender e mais rude com aqueles que ignoram ou esperam o último momento para aceitá-lo.

Além disso, esse apego à nostalgia costuma nos fazer romantizar coisas sob uma ótica menos realista. Neste caso, é achar que o uso do recurso artificial na música surgiu outro dia. E desconsiderar a existência consolidada de playback, masterização, mixagem, edição, remix e outros. Aliás, acredita que o Auto-tune surgiu há 29 anos?

O elogio ao erro: O que a máquina ainda não entende

Outro ponto que me instigou bastante enquanto aprendia sobre música para IA é que nem todos percebem que a tecnologia vai sempre em sentido oposto à arte. Afinal, enquanto ela foca em entregar resultados cada vez mais perfeitos, o encantamento maior na produção artística costuma estar no ruído. No  inesperado, na falha. No improviso.

A seguir, veja alguns exemplos que explicam melhor esse contexto.

Canções que ser tornaram clássicas devido aos erros humanos - Jornal Voz Atriva

Caixa de Ferramentas: 5 caminhos para o artista híbrido

Por fim, para não ficar apenas no campo das ideias, separei cinco plataformas que mostram como a tecnologia pode ser sua aliada, Na escolha, foquei em ferramentas em que a versão gratuita oferece um teste além do básico, para você começar.

5 ferramentas para criar música com IA - Jornal Voz Ativa

Ética, direito autoral e curadoria

Para criar com IA sem esbarrar na ilegalidade- seja música, texto, documento, arte, vídeo – é preciso que a produção esteja de acordo com a Lei 9.610/1998 que rege os Direitos Autorais no Brasil. Além dela, o Brasil aprovou em 2014 o Marco Civil da Internet que reitera em seu texto a proteção de uma obra autoral contra o uso irregular.

Em síntese, nunca se esqueça de algo essencial: Inove mas foque em curadoria que respeite a lei. Ser um entusiasta da tecnologia não nos dá o direito de sermos piratas da propriedade alheia.

FAQ | Perguntas frequentes sobre música e IA

A música criada por Inteligência Artificial é considerada arte legítima?

Sim, mas geralmente quando guiada por uma intenção humana clara. Assim como a fotografia exige o olhar do fotógrafo, a IA atua apenas como instrumento tecnológico, Ou seja, depende da curadoria e direção artística para transcender o cálculo matemático.

A Inteligência Artificial vai substituir os músicos e compositores humanos?

Certamente não. Contudo,ela já caminha para ser a principal ferramenta de produções genéricas e funcionais. Para artistas com propósito, ela ainda pode ajudar no processo criativo e de produção.

Quem detém os direitos autorais de uma música feita com IA?

Se feita exclusivamente pela IA, a lei não considera a existência de direitos autorais. Por outro lado, se houver a intervenção humana criativa (como edição, prompts detalhados ou composição adicional), o humano pode deter os direitos e registrar a obra.

O uso de IA na produção musical é considerado plágio?

Não de modo automático, porém o uso de vozes, melodias e letras que infrinjam as regras da Lei de Direitos Autorais são passíveis de punição. Ou seja, a utilização de tecnologia não exime o responsável de respeitar a propriedade intelectual.

Como saber se uma música foi feita por Inteligência Artificial?

Aos ouvidos mais atentos, a maioria das crianças ainda possui alguns sinais auditivos comuns. Por exemplo, falta de emoção na voz, falhas estranhas, letras incoerentes, estruturas repetitivas ou mecânicas sem nuances humanas. Mas como as ferramentas avançam rapidamente, o mais confiável é checar através de ferramentas como AI Music Checker, ACRCloud Detector ou Beatstorapon.

É possível ter uma música de IA monetizada em plataformas de streaming?

Sim, desde que a criação seja comprovadamente manual – e não com ferramentas autônomas. Na prática, significa realizar um processo que vá além do copiar ou colar ou deixar a IA com liberdade criativa. Por isso, atente-se para, antes de pensar em distribuir, ter uma licença de direitos comerciais( planos pagos permitem obtê-la).

Conclusão: Domine o monstro ou seja devorado

Por fim, o convite que faço nesta coluna é para que você não tenha medo do robô, mas sim do seu próprio desleixo criativo. Aprender como essas ferramentas funcionam não é “se render às máquinas”, é garantir que você continuará sendo o maestro da sua própria narrativa.

Afinal, mesmo que as IAs aprendam a explicar o encantos que os chiados do vinil causam nos colecionadores ou consiga entregar o hit do verão em alguns segundos, apenas nós sentimos a música como trilha sonora de uma lembrança, da cura do luto, do amor ou da ausência.

E isso significa que, no fim das contas, a máquina só toca a música. Quem dança é sempre o coração.

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