Ocultar anuncios
Ao Vivo

19ª Reunião Orinária da Câmara de Ouro Preto-MG

Role para baixo para ler nossas matérias
Corrida / Atitude ALMG 01/10/2025
Saneouro 17/09/2025
PMOP 26/08/2025
Cooperouro 04/08/2025

O que perdemos quando as relações virtuais viram prioridade, por Luiza Fariello

Luiza Fariello reflete sobre a fragilidade dos relacionamentos virtuais e a perda dos encontros no mundo atual.
Publicado em Colunas
Data de publicação: 25/03/2026 16:37
Última atualização: 25/03/2026 16:40
 *Luiza Fariello é professora de Língua Portuguesa, doutoranda em Literatura na UnB e autora de “Um corpo para Jaime”, romance sobre a solidão contemporânea e a fragilidade das relações virtuais. Crédito - Arquivo pessoal.
*Luiza Fariello é professora de Língua Portuguesa, doutoranda em Literatura na UnB e autora de “Um corpo para Jaime”, romance sobre a solidão contemporânea e a fragilidade das relações virtuais. Crédito - Arquivo pessoal.

Vinicius de Moraes contou certa vez que compôs a letra de “Gente Humilde”, uma das mais belas canções da música brasileira, inspirado, como diz a letra, pelas casas e pessoas muito simples do subúrbio que avistava enquanto se deslocava de trem. Os versos, que receberam a parceria de Chico Buarque, foram feitos no final dos anos 60 para a melodia composta em 1945 por Garoto, que infelizmente não chegou a conhecer a letra.

Mais do que nos fazer chorar de emoção, a canção tem o poder de nos humanizar; é um chamado para que a gente olhe ao redor, perceba. Esse convite talvez fosse bem mais difícil de ser aceito nos dias atuais, em que as pessoas – seja nos trens, ônibus, calçadas, salas de espera ou qualquer outro lugar que se pense – estão muito mais preocupadas em contemplar as telas do que flores tristes e baldias.

O desligamento das pessoas em relação ao lugar em que moram, pois cada vez mais priorizam os relacionamentos e os espaços virtuais, foi um dos sintomas abordados por Zygmunt Bauman na obra “Amor Líquido”. Para o filósofo, essa indiferença ao entorno seria o mais basilar dos afastamentos sociais, culturais e políticos de nosso tempo. Como podemos estar em todos os lugares, estamos também em lugar nenhum: simplesmente não pertencemos.

Perdemos o sono por sofrimentos que se passam do outro lado do mundo, o que é legítimo e prova da enorme capacidade de empatia do ser humano, mas somos cegos com as mazelas que acontecem no nosso bairro – onde certamente temos mais capacidade para interferir. 

Conhecemos a rotina do influencer que nem sabemos onde mora, memorizamos até o nome de seus filhos, mas custamos a lembrar se nos perguntam o nome do nosso vizinho. As redes, de fato, apenas reforçam o modo de vida corrida, alienante e obrigatoriamente produtiva disseminado de forma massificadora pela lógica neoliberal em que estamos imersos.

No mundo virtual, os laços se tornam cada vez mais frágeis e efêmeros; as pessoas, mais substituíveis. As redes sociais parecem, em verdade, bastante antissociais, terreno propício à disseminação do ódio por pessoas covardes demais para fazê-lo presencialmente – estão aí os redpills para provar. Nas redes multiplicam-se os linchamentos virtuais e as loucuras nocivas em massa, como é o caso da recente onda da magreza extrema.

Embora existam boas iniciativas e redes virtuais de apoio para as mais variadas questões, é preciso dar cada vez mais atenção para o real, acompanhar a lógica das crianças, que nos convidam a observar a fileira de formigas que se faz infinita no chão e a nuvem, antes que se desfaça. Antes que estejamos tão distantes que não seja mais possível alcançar a poesia e a música, ou mesmo a “vontade de chorar” de Vinicius e Chico. 

CTA IA Jornal Voz Ativa

Matérias Salvas