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Leia ‘Ouro Preto – entre esplendor e dor’, por Valdete Braga

Não perca mais uma crônica inédita da colunista do JVA.
Publicado em Colunas, Valdete Braga
Data de publicação: 09/09/2026 11:32
Última atualização: 09/09/2026 11:32
Valdete Braga / Arquivo pessoal.
Valdete Braga / Arquivo pessoal.

É impossível não se encantar com esta cidade linda que é a nossa Ouro Preto. Os casarões antigos parecem conversar com o tempo, as igrejas cobertas de ouro brilham sob o céu das montanhas, e existe poesia em cada ladeira. Há beleza em tudo: no som dos passos sobre as pedras, nas janelas coloniais, no ouro das imagens sacras e na neblina que, mesmo mais rara nos nossos dias, ainda cai, por vezes, sobre a cidade.

Toda esta beleza, porém, não foi construída por prazer. Pelo contrário, existe uma memória dolorosa de muitos que por aqui passaram e que, se olharmos com o olhar certo, perceberemos que ainda respira sobre os muros da antiga Vila Rica.

Nossa cidade, que encanta turistas e moradores, foi cenário de sofrimento profundo durante o Brasil Colônia. Enquanto a riqueza circulava entre os nobres e a Coroa Portuguesa celebrava o ouro extraído das minas, milhares de pessoas escravizadas viviam dias marcados pela fome, pelo medo e pela exaustão. O brilho do ouro escondia lágrimas que ninguém via, lágrimas de seres humanos invisíveis aos olhos dos poderosos moradores, que usufruíam do que eles construíam e hoje são admirados por turistas do mundo inteiro.

Talvez seja isto que torne Ouro Preto tão especial. Sua beleza carrega um peso, é uma beleza construída sobre contrastes humanos difíceis de ignorar. As mesmas mãos que ergueram igrejas magníficas também sangraram nas minas, os mesmos sinos que anunciavam missas e celebrações ecoavam sobre homens e mulheres privados da própria liberdade.

Há algo de melancólico em Vila Rica, como se as pedras das ladeiras guardassem lembranças que nunca desapareceram completamente. Quem observa apenas a arquitetura vê encanto, mas quem olha com atenção percebe que existe também uma tristeza, que atravessa os séculos.

Talvez seja justamente esta mistura entre esplendor e dor que faça Ouro Preto tão humana. A cidade nos lembra que a história nem sempre nasce de coisas boas. Muitas vezes, aquilo que o tempo transforma em patrimônio foi construído sobre um sofrimento ignorado na época.

Contemplar Ouro Preto é admirar sua arte, sua cultura e sua grandiosidade, mas é também reconhecer aqueles que ficaram escondidos nas páginas da história oficial. Assim, a memória dos que sofreram em Vila Rica não se esvai com o tempo.

Talvez a maior responsabilidade do presente seja não permitir que essa dor do passado seja esquecida. Recordando também o sofrimento dos escravizados, tornamos nossa visão mais humana, mais verdadeira e mais consciente sobre o preço que foi pago para construir parte da história do Brasil.

Assim estaremos sendo justos, sabendo conciliar a admiração pela cidade com o reconhecimento da dor de quem a construiu.

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