(In)acessibilidade e invisibilidade, até quando?

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Por Colunista Mônica Flores Publicado em 10/10/2019, 09:48 - Atualizado em 10/10/2019, 09:48
“Durante toda minha vida, eu nem sabia se eu realmente existia. Mas eu existo. E as pessoas estão começando a perceber.” (O Coringa). Foto-Divulgação/Reprodução.

As pessoas com deficiência e mobilidade reduzida tem ganhado notoriedade, através dos conteúdos disponibilizados nas redes sociais e nos demais meios de comunicação, mostrando para além do preconceito as suas competências, habilidades e geração de valores para a sociedade, mas temos muito a evoluir. Quem esteve nos cinemas recentemente, assistindo ao filme O Coringa, de Joaquim Phoenix, pôde notar as questões explícitas em relação ao tratamento dado às pessoas que sofrem de transtornos mentais. E, também entendendo que a construção ou distorção de muitas vidas tem início na forma como se lida ou não com as diferenças. O fato é que, essas atitudes não tem sentido, porém segundo dados da Organização Mundial Saúde, apontam que o número de casos de depressão aumentou de 2005 e 2015, em cerca de 18%. E, atualmente convivemos diariamente com casos de suicídio. De certa forma, mesmo não sabendo lidar com os problemas, somos responsáveis ao que afeta essas pessoas.

Em dado momento do filme, o personagem Arthur Flerck, o Coringa, desabafa em relação a sua experiência com a (in) visibilidade das pessoas para com a sua vida e a partir dessa interferência, nasce o personagem, visto como “pertubado, deslocado e incomodado com sua própria existência”, alguém que gostava de rir, passa a cometer crimes e as lágrimas são suas companheiras. Ele se depara com um mundo perverso, com pessoas maldosas que constantemente o agridem verbal e fisicamente. E, até quem deveria ajudá-lo, através de consultas médicas, não parece demonstrar o afeto ou real interesse pela sua causa. Será que esse fato é limitado somente ao filme? Pode parecer pouco, mas perto da qualidade das relações humanas que presenciamos, as estatísticas e o número de pessoas com deficiência e mobilidade reduzida no país, é tudo sim. Afinal de contas são 45 milhões de pessoas.

Estabelecendo um paralelo entre a (in) visibilidade causada por essas barreiras atitudinais, comportamentais e das relações humanas, quando se fala de acessibilidade nas cidades, para que elas possam de fato pertencer, ser, estar e acessar à cidade, ainda nota-se uma visão distorcida. Esse fato se dá muitas das vezes por associações mentais errôneas sobre a deficiência e do conceito de acessibilidade. Sendo que ela é encarado como mais um combo de "rampa, barra de apoio e símbolos de acesso”, assimilando a questão a quem usa somente cadeira de rodas, quando na realidade englobam-se um grupo plural e diverso de deficiências, doenças raras e pessoas com mobilidade reduzida (idosos, gestantes, etc). E, quando não entendem como acesso a algo, a entrada propriamente dita a de um estabelecimento, por exemplo.

O filme não é uma exceção a regra, quando se fala de como tratar as pessoas com deficiência, percebe-se um pouco de descaso no que tange a salvaguarda de seu direito de ir e vir e o desrespeito à pessoa, que antes da deficiência é como todos as demais, pessoa. A partir dessa problemática, a autora resolveu desmistificar o conceito, esclarecendo que, a acessibilidade é a condição para que todos acessem com autonomia e segurança às edificações, mobiliários, espaços e equipamentos urbanos, entre outros. Porém, é notável que eles não possuem em sua grande maioria a acessibilidade, isto é, condições de acesso com segurança e autonomia mínimas.

De acordo, com a (NBR 9050,2015), uma edificação, um mobiliário, um espaço e/ou um equipamento urbano é considerado ACESSÍVEL, quando ele pode ser alcançado, acionado, utilizado, vivenciado por qualquer pessoa, inclusive aquelas com deficiência e mobilidade reduzida. Mas, a realidade é bem assustadora, principalmente para os profissionais da área, onde se deparam com erros bossais de projeto, muitas das vezes pela falta de aplicação dos parâmetros da norma, do estudo do público em questão, o que ocasiona numa péssima impressão àqueles que são mais dedicados e principalmente aos usuários, que as registram com indignação.

Além dessa definição, temos a questão de espaços, edificações e meio que são ADEQUADOS, ou seja, foram PLANEJADOS para serem acessíveis; por outro lado o conceito de ADAPTÁVEL, onde suas características podem ser ALTERADAS para se tornarem acessíveis. Percebe-se, que um dos principais entraves, para tornar os espaços edificados, em acessíveis, estão nas barreiras do meio, sobretudo as ATITUDINAIS, muito embora hajam outras, como as arquitetônicas.  Elas, nem sempre são concretas, mas se materializam no preconceito, na comparação, na adjetivação, na padronização e nos mais variados padrões comportamentais do indivíduo para com o outro.

O que se nota são espaços (in) acessíveis e deficientes, carentes de atitudes e comportamentos empáticos para com as pessoas, que apesar das inúmeras barreiras arquitetônicas, reproduzem um estado de exclusão e segregação para as pessoas com deficiência e mobilidade reduzida. Em outras palavras, essas questões atingem consideravelmente o acesso autônomo e seguro aos serviços, ao entretenimento, no lazer, na educação, na saúde e também nos equipamentos e mobiliários urbanos.

A acessibilidade é uma responsabilidade dos profissionais da área de arquitetura em seus projetos. E, eles devem salvaguardar, o direito de ir e vir das pessoas nas suas concepções arquitetônicas e também que suas intervenções em espaços já edificados sejam adaptados, isso inclui também os edifícios situados em perímetro tombado, como nas cidades históricas. E, que o exemplo do Filipe se arraste pelo país para que as pessoas possam de fato, estar inseridas, integradas, incluídas na cidade e usufruir de todos os espaços dela.

Foto-O cantor Péricles realizou show em Campinas, no dia 8 de setembro. Crédito-Reprodução.

ACESSIBILIDADE NO ENTRETENIMENTO

A acessibilidade permite uma vida normal: Jovem que se dedica aos direitos da pessoa com deficiência comemora casa de show acessível em Campinas

Segundo o último censo demográfico do IBGE, 45 milhões de brasileiros sofrem de algum tipo de deficiência. Esta imensa parte integrante da população, que diariamente enfrentam as grandes cidades, que ergue barreiras até mesmo para o cidadão com plena capacidade, sofrem com a carência de espaços que os respeitem com a humanidade devida. Mas a inclusão não se dá apenas em relação à mobilidade urbana. Ela engloba a capacidade que a sociedade tem de proporcionar à todos os indivíduos iguais condições de acesso à educação, trabalho, saúde e também ao lazer. Afinal todos merecem ter as mesmas oportunidades.

Apesar dos avanços na conscientização e das leis existentes, ainda são poucas as casas noturnas e os espaços para eventos que respeitam a diversidade e promovem a inclusão através da acessibilidade. Entretanto, na contramão do preconceito e descaso, a casa de show Campinas Hall, que fica no Jardim Santa Cândida se destaca no cenário do entretenimento, proporcionando à uma diversidade de público, uma também diversa gama de artistas.

No dia 8 de setembro, no show do cantor Péricles - Pagode do Pericão, a equipe da casa pode contar com a presença de Felipe Alves Bevilacqua, de 29 anos, que, através de um infeliz acidente na praia, quebrou o pescoço e ficou tetraplégico.

“Quando fomos procurados pelo Felipe, dizendo que ele tinha interesse em ir ao show, mas que precisaria de todo tipo de segurança quanto à acessibilidade, percebemos o quão importante é ter um espaço completamente preparado para que pessoas com qualquer tipo de necessidades possam aproveitar o show de um cantor preferido ou simplesmente ter uma vida normal, como qualquer outra”, explica o sócio proprietário Estéfano Bespalec Júnior.

Segundo o gerente comercial da Casa Felipe Meira, o Campinas Hall que já cumpria todas as leis e que possuía grande preocupação com a acessibilidade, despertou para a necessidade de que as pessoas soubessem que ali podem frequentar com tranquilidade. “Sabemos que Campinas ainda está longe de ser uma cidade modelo, mas estamos muito felizes em saber que fazemos parte dos poucos lugares que podem tirar as pessoas com deficiência da sua rotina”, completa.

Acidente abriu a mente do jovem que hoje luta pela acessibilidade

Felipe sempre foi uma pessoa completamente ativa e procurava manter a boa forma. Também sempre valorizou sua independência mantendo uma autonomia nas suas atividades domésticas diárias. “A vida muda de maneira abrupta e incontrolável assim como o tempo em uma tarde de verão de 2015. Ao parar para me refrescar em uma viagem, uma onda me traiu. Bati minha cabeça contra um banco de areia e morri para nascer novamente em minha atual condição. Ao perder minha quinta cervical também perdi muito de mim”, lembra ele.

Após acidente, Felipe se dedica a lutar pelos direitos das pessoas com deficiência. Crédito-Arquivo pessoal.

Após quatro anos do acidente, hoje ele se dedica a lutar pelos direitos das pessoas com deficiência na sua página do Facebook e Intagram chamada Tetralegal, em todos os âmbitos possíveis, inclusive no entretenimento. “A dignidade do acesso é indispensável à felicidade”. Sou muito fã do Péricles. Entrei em contato com o Campinas Hall para me informar e esclarecer as minhas necessidades, e após alguns e-mails, descobri que poderia aproveitar uma tarde de domingo com toda a tranquilidade, conforto e segurança que precisava. Não só fui extremamente bem atendido e instalado, como tive a oportunidade de conversar e tirar fotos com a lenda do samba Péricles

Percebi um cuidado muito grande da equipe em atender às necessidades e me senti absolutamente tranquilo e integrado a multidão que prestigiava o evento. Não foi apenas um show, foi uma experiência e eu agradeço os cuidados do Campinas Hall”, disse.

Porém, infelizmente, segundo ele, nem todos os espaços de evento da cidade estão preparados para receber um cadeirante. “Já passei por experiências bem complicadas e frustrantes, portanto, quando vivemos uma situação tão positiva, fazemos questão de compartilhar e indicar”, finaliza.

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