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Por que Israel é maior do que seu PIB?, por Emilio Moreno Plascencia

Leia o novo artigo do colunista mexicano no “Finanças para todos”.
Publicado em Finança para todos
Data de publicação: 01/04/2026 17:02
Última atualização: 01/04/2026 17:02
Imagem ilustrativa. Crédito — Reprodução.
Imagem ilustrativa. Crédito — Reprodução.

Israel é um país pequeno se alguém o medir pela régua mais popular da economia: o tamanho de seu PIB. Nos números, sua produção total é comparável à de uma economia média e representa uma fração do produto mundial. No entanto, sua influência real não se comporta como a de uma economia média. Comporta-se como a de um nó crítico. E essa diferença, que parece semântica, explica por que Israel pode projetar força e relevância estratégica muito acima do que seu tamanho sugeriria.

A maneira mais clara de entender isso é mudar a pergunta. Em vez de perguntar “quanto produz?”, convém perguntar “quão prescindível é?”. Há economias que são grandes porque vendem volume. Outras são grandes porque vendem condições para que o resto funcione. Israel se especializou na segunda opção. Exporta segurança, e a segurança, quando se torna infraestrutura, é paga como se paga a eletricidade, por necessidade.

A estrutura de sua economia mostra essa hiperconcentração. Em 2024, as exportações de alta tecnologia alcançaram cerca de 78 bilhões de dólares, e no primeiro semestre de 2025 o high-tech representou aproximadamente 57% das exportações totais do país, o maior peso já registrado. Não é apenas “um setor importante”. É o setor que define a relação de Israel com o mundo. Essa concentração, além disso, não se sustenta apenas em software generalista, mas em micro-nichos: cibersegurança, infraestrutura de nuvem, defesa, sensores, comunicações, inteligência aplicada. Em mercados assim, a competição não se decide apenas por preço. Decide-se por confiança e por reputação de funcionamento em condições reais.

Esse é o ponto que muitas vezes se perde quando se olha o tema como “startup nation” de forma decorativa. Uma economia não se torna estratégica por produzir tecnologia; torna-se estratégica quando produz tecnologia que outros não podem substituir sem alto custo. O músculo de Israel não depende de ter um mercado interno gigantesco, mas de estar conectado ao sistema operacional de empresas e governos que de fato o têm. A força vem da dependência externa.

Um exemplo recente torna essa ideia tangível. O Google concluiu em março de 2026 a aquisição da Wiz por 32 bilhões de dólares, no que meios israelenses descreveram como o maior “exit” da história do país. Mais do que o número, o sinal é estrutural: as grandes empresas de tecnologia não compram esse tipo de ativo para “ter presença”. Compram porque esses ativos resolvem um problema central, proteger dados e operação em um ambiente em que a nuvem é a coluna vertebral do negócio. E quando algo é tão essencial, não se pode dar ao luxo de pensar se vale a pena pagar ou não.

A outra perna do modelo é igualmente decisiva: defesa. Israel reportou um recorde de exportações de defesa em 2024 de aproximadamente 14,7 a 14,8 bilhões de dólares, com um aumento anual de dois dígitos. Isso não transforma Israel em uma economia militarizada por definição, mas revela algo muito importante: quando um país acumula décadas de aprendizado sob ameaça, sua indústria de defesa tende a desenvolver soluções comprovadas, e o mercado global costuma pagar pelo que foi comprovado. Em segurança, ao contrário de outros setores, a “evidência” é crucial. E o desempenho se torna um ativo exportável.

Agora, dizer que Israel é forte por vender segurança não significa romantizar o conflito nem reduzir tudo a um mérito tecnológico. Significa reconhecer uma lógica econômica fria: quando uma economia consegue monopólios de facto em nichos críticos, pode sustentar renda, talento, investimento e capacidade estatal com uma base relativamente pequena. Os dados de seu próprio ecossistema sugerem isso com clareza: um segmento reduzido da população sustenta uma parcela desproporcional das exportações e, portanto, da arrecadação e do músculo fiscal. Essa é a razão pela qual o país pode financiar um aparato de segurança amplo, absorver choques e manter uma densidade de pesquisa que outras economias têm dificuldade em replicar.

O custo desse modelo é que ele também é frágil à sua maneira. A hiperconcentração é potência e risco ao mesmo tempo. Se o high-tech esfria, se o capital global recua, se a guerra prolongada deteriora talento ou investimento, o golpe não se distribui de maneira igual. Por isso, paradoxalmente, o mesmo país que parece indestrutível por sua capacidade tecnológica também vive com uma dependência aguda de manter sua posição em setores onde a mudança é constante e a concorrência é global; Em palavras simples, o que Israel faz é colocar todos os ovos em uma cesta, e os próprios princípios de distribuição de bens alertam para um perigo diante disso.

Ainda assim, em vez de vê-lo apenas de um ponto de vista superficial, convendría mais tomá-lo como um ponto de análise para além de Israel. O poder pode ser posição. Em uma economia mundial interconectada, ser pequeno não é necessariamente uma desvantagem se alguém se torna imprescindível. Há países que pesam por população, por território ou por recursos. Outros pesam por desenhar, proteger ou habilitar a infraestrutura de que o resto precisa para operar. Israel apostou nessa rota com uma disciplina extraordinária, e por isso sua influência não coincide com seu PIB.

Medir a força de um país por seu produto total é como medir a importância de uma peça por seu peso. Em um sistema complexo, o que importa nem sempre é o que é pesado, mas o que é insubstituível; Ou, em termos econômicos: tentar medir uma preferência com uma função de valor esperado e ignorar uma função de utilidade. E quando um país consegue converter “segurança” em infraestrutura exportável, seu tamanho deixa de ser o dado principal. O dado principal passa a ser quanto custaria, para o resto do mundo, viver sem o que esse país vende.

Referências:
IMF DataMapper (PIB de Israel em preços correntes). Israel Innovation Authority, The State of High-Tech 2025 (exportações high-tech 2024 e participação nas exportações no 1º semestre de 2025).
Ministério da Defesa de Israel (recorde de exportações de defesa 2024). Google (conclusão da aquisição da Wiz) e Reuters/TechCrunch/Times of Israel (valor e cronologia do acordo).

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