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Opinião | “O império que não precisa de invadir”, por Emilio Moreno Plascencia

Leia o novo artigo do colunista mexicano no “Finanças para todos”.
Data de publicação: 13/05/2026 13:53
Última atualização: 13/05/2026 13:53
Imagem ilustrativa. Crédito — Reprodução.
Imagem ilustrativa. Crédito — Reprodução.

Durante grande parte do século XX, esteve presente na América Latina um padrão constante de dominação. Golpes de Estado, bloqueios, bases militares ou ameaças diplomáticas. O poder era claramente visível.

Mas o século XXI mudou as formas de influência. Hoje, um país pode perder margem de decisão sem que ninguém atravesse as suas fronteiras. Pode exportar mais, construir portos, receber investimento estrangeiro, integrar-se no comércio global e, ainda assim, tornar-se menos livre.

A China é um claro exemplo disso. Não precisou de conquistar a América Latina. Bastou-lhe tornar-se indispensável para ela.

No ano 2000, a relação comercial entre a China e a América Latina ainda era relativamente marginal. Hoje supera os 500 mil milhões de dólares anuais. A China já é o segundo maior parceiro comercial da região no seu conjunto e o principal parceiro da América do Sul. À primeira vista, o número parece contar uma história apenas positiva: mais comércio, mais exportações, mais investimento e maior ligação à Ásia.

No entanto, uma relação económica não se mede apenas por quanto se vende. Também se mede pelo que se vende, por quem transforma, por quem decide e por quem fica com o valor final.

O problema não é comerciar com a China. Seria absurdo colocá-lo nesses termos. O comércio pode gerar emprego, infraestrutura, financiamento e oportunidades. O problema surge quando uma região se habitua a vender matérias-primas e a importar futuro.

A estrutura é visível. A América Latina exporta soja, cobre, ferro, petróleo, lítio e alimentos. A China exporta maquinaria, eletrónicos, carros elétricos, painéis solares, tecnologia e bens manufaturados. Por outras palavras: uns vendem recursos; outros vendem transformação, enquanto capturam valor acrescentado.

Esta assimetria não é nova. A América Latina viveu durante séculos dentro de uma economia em que, muitas vezes, produz o básico e compra o complexo. O que é diferente agora é a escala geopolítica. O objetivo já não deve ser apenas vender mais, mas compreender que lugar ocupa a região dentro das cadeias globais de valor.

A América Latina está a usar a China para se desenvolver ou encontrou simplesmente um novo comprador para continuar a fazer o mesmo?

O caso do porto de Chancay, no Peru, resume bastante bem esta tensão. O projeto, operado pela Cosco Shipping, promete reduzir os tempos de transporte para a Ásia e transformar o Peru num ponto logístico-chave do Pacífico sul-americano. Para o país, pode ser uma grande oportunidade: menores custos, maior competitividade exportadora e uma ligação direta à China.

Mas um porto não é apenas betão diante do mar. Um porto é velocidade, informação, acesso, prioridade e uma peça extremamente importante nas negociações. Quem controla uma via logística não movimenta apenas mercadorias; também influencia o mapa económico de uma região.

Algo semelhante acontece com o lítio. A América Latina possui uma parte essencial dos recursos que alimentam a transição energética global, mas muitas vezes continua presa a uma lógica extrativa. Extrai-se lítio, exporta-se lítio e depois importam-se baterias, carros elétricos e tecnologia fabricada noutro lugar. Isso não é uma transição energética completa. É puro extrativismo.

A armadilha não está em vender recursos. Todos os países comerciam com aquilo que têm. A armadilha está em não construir capacidades próprias a partir desses recursos. Vender lítio pode dar receitas a um país durante alguns anos. Fabricar baterias, componentes, software, veículos elétricos e conhecimento pode mudar a sua posição durante gerações.

Por isso, a conversa não pode reduzir-se a saber se a China é “boa” ou “má” para a América Latina. Essa pergunta é demasiado simples. A China atua como qualquer potência que entende os seus interesses: procura recursos, mercados, infraestrutura, influência e segurança para as suas cadeias de abastecimento. O importante não é escandalizar-se com isso, mas perguntar o que estão os países latino-americanos a fazer para defender os seus próprios interesses e, no futuro, a sua soberania.

Também convém matizar a ideia da “armadilha da dívida”. A China financiou, sim, obras e empréstimos importantes na região, mas a sua influência já não depende apenas de conceder grandes quantidades de dinheiro. Hoje parece avançar para uma estratégia mais seletiva: infraestrutura-chave, energia, logística, carros elétricos, telecomunicações, comércio digital e tecnologia.

E aqui a América Latina também tem de olhar para si própria. Nem tudo se explica pela China. A região carrega problemas próprios: baixo investimento em ciência e tecnologia, instituições frágeis, corrupção, pouca planificação industrial, educação técnica insuficiente e Estados que, muitas vezes, negociam sem visão de longo prazo.

Culpar apenas a China seria o mais cómodo. Celebrar qualquer investimento estrangeiro como se fosse desenvolvimento automático também o seria.

A América Latina precisa de portos, estradas, tecnologia, financiamento e investimento. Não pode fechar-se ao mundo. Mas também não pode permitir-se entrar no mundo apenas como fornecedora barata de recursos. Precisa de negociar melhor: exigir transferência tecnológica, participação local, padrões ambientais, proteção laboral, desenvolvimento industrial e capacidade estatal para não aceitar qualquer condição apenas porque vem acompanhada de capital.

Antes, a América Latina vendia matérias-primas à Europa e aos Estados Unidos. Hoje, muitas dessas matérias-primas vão para a China. O destino mudou, mas a estrutura não necessariamente.

A China pode ser uma oportunidade para a América Latina. Mas uma oportunidade mal negociada pode transformar-se em dependência. O grande desafio latino-americano não é rejeitar a China. Também não é entregar-se a ela. É aprender a negociar a partir de uma visão própria.

Ganhar dinheiro não significa ganhar poder. Às vezes, significa receber receitas hoje em troca de perder controlo amanhã. E uma região que confunde exportar mais com decidir mais pode acabar por celebrar o seu crescimento enquanto entrega, pouco a pouco, a sua soberania económica.

Sei que o contributo de uma só pessoa não basta para mudar o rumo de toda uma região, mas, se todos continuarmos com esse pensamento, nada mudará.

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