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Opinião | “A era da arte acabou”, por Emilio Moreno Plascencia

Leia o novo artigo do colunista mexicano no “Finanças para todos”.
Publicado em Finança para todos
Data de publicação: 11/03/2026 11:07
Última atualização: 11/03/2026 12:46
Imagem ilustrativa. Crédito — Reprodução.
Imagem ilustrativa. Crédito — Reprodução.

Correntes de esquerda costumam criticar o capitalismo denunciando sua desigualdade, sua voracidade e sua capacidade de transformar tudo em mercadoria. No entanto, me parece que há outra forma de criticar o capitalismo, observando-o a partir de um ponto de vista da antropologia que ele mesmo supõe: o que ele entende por “pessoa” e o que exige para reconhecê-la como alguém válido.

A economia moderna, em sua versão mais bem-sucedida, não se limita a organizar bens. O objetivo não é apenas produzir mais, mas sim fazê-lo de forma mais previsível. Para que o sistema seja eficiente, ele precisa de indivíduos legíveis, comparáveis, substituíveis. Precisa que a vida possa ser traduzida em métricas: horas, desempenho, resultados, crescimento, produtividade. E, nesse ato, aquilo que você é, sua interioridade, seu desejo, sua dúvida, sua criatividade, sua particularidade irredutível, fica fora da linguagem oficial. O que permanece dentro é o objeto: o perfil, a carreira, o currículo, a marca pessoal, a unidade de produção.

O sujeito, em sentido filosófico, não é uma abstração romântica. É a instância a partir da qual a vida é vivida e interpretada. É consciência, mas também é fragilidade; é desejo, mas também é contradição; é tempo interior, não tempo calendarizado. O objeto, em contrapartida, é aquilo que pode ser colocado no mundo como coisa avaliável. O objeto pode ser comparado, ordenado, classificado. E o capitalismo, como máquina de coordenação social, funciona melhor quando trata as pessoas como objetos que rendem.

Por isso, a pergunta real não é se o capitalismo “explora” o trabalhador no sentido clássico, mas em que medida exige que o trabalhador se transforme em outra coisa para sobreviver. Na economia contemporânea, vende-se identidade. Vende-se disponibilidade emocional. Vende-se presença. Vende-se narração. A subjetividade se torna matéria-prima: motivação, entusiasmo, resiliência, paixão. A linguagem empresarial utiliza esses termos porque descobriu que a energia interior pode se converter em desempenho mensurável. E, nessa descoberta, o sujeito deixa de ser fim e passa a ser insumo.

Esse deslocamento produz uma ética estranha. Pede-se de nós autenticidade como estratégia. Pede-se que “sejamos nós mesmos” desde que esse “nós mesmos” seja rentável. Pede-se criatividade, mas apenas na forma que reduz custos ou aumenta vendas. Pede-se liberdade, mas dentro do marco de objetivos trimestrais. O que não se monetiza é ridicularizado. Assim, o sujeito aprende a se ocultar parcialmente. Precisa se recortar.

Todos são artistas até que precisam pagar o aluguel. O aluguel não é apenas um custo econômico. É um dispositivo ontológico. Obriga a escolher entre ser e funcionar. O mercado não proíbe a arte diretamente, mas a torna inviável como modo de vida para a maioria. E, no momento em que a arte se torna inviável, ela vira uma simples decoração. Vira hobby. Vira “quando eu tiver tempo”. O resultado não é apenas a perda de artistas; é a perda de uma relação com o mundo em que o valor não é definido por sua utilidade imediata.

Quando correntes de esquerda falam de alienação, não falam apenas de salários. Falam de uma separação: o trabalhador se separa de seu produto, de seu processo, de sua essência e dos outros. Em outras palavras, separa-se de si mesmo como sujeito. Mais tarde, nessa mesma corrente filosófica, observa-se a indústria cultural; sua preocupação não é que exista entretenimento, mas que a lógica da mercadoria invada o território onde se formava a consciência. Hoje, essa invasão é ainda mais profunda. Não apenas a cultura se mercantiliza; a pessoa se mercantiliza. A subjetividade deixa de ser um espaço de liberdade para se converter em um recurso gerenciável.

Esse ponto tem consequências que parecem psicológicas, mas são profundamente econômicas. A criatividade hoje em dia começa a morrer por falta de condições. Criar exige custos, tempo improdutivo, possibilidade de erro, tolerância ao silêncio e uma certa segurança mínima para que a mente não viva em estado de urgência. Quando a vida se transforma em uma corrida contra o próximo pagamento, a urgência ocupa o espaço onde nascia a obra. Não é uma metáfora. O sujeito não pode produzir arte quando está permanentemente defendendo sua sobrevivência. Pode produzir o que “funciona”. Mas a criatividade, em seu sentido forte, aquela que reorganiza a linguagem e rompe o costume, precisa de uma economia em que seja possível ter uma pausa da ansiedade.

Uma sociedade que disciplina seus indivíduos para que sejam legíveis e produtivos pode aumentar a eficiência no curto prazo, mas paga custos invisíveis no longo: empobrece sua reserva de imaginação. E sem imaginação não há inovação real. Não há futuro. É um paradoxo do capitalismo tardio: exige criatividade como combustível, mas cria as condições que a asfixiam. Quer talento, mas seleciona adaptabilidade à métrica.

O cenário para o qual isso nos empurra não precisa de distopia para ser preocupante. Basta imaginar uma geração que aprende desde cedo a transformar qualquer impulso em produto. A tratar cada interesse como marca. A medir cada ideia por seu potencial de monetização. Nessa geração, o sujeito não desaparece; torna-se um gerente de si mesmo. Administra sua energia, sua imagem, sua narrativa. Torna-se objeto com consciência de ser objeto. E essa autogestão permanente produz fadiga moral. A vida se torna performance. Não porque alguém o ordene, mas porque o sistema recompensa quem performa melhor.

Uma crítica séria ao capitalismo, então, não pode se limitar a propor “menos mercado” ou “mais Estado” como slogans. Deve perguntar algo mais radical: que tipo de ser humano estamos produzindo quando utilizamos a utilidade como critério absoluto de valor. O que acontece com uma sociedade em que existir deve significar, paralelamente, produzir. O que se perde quando o “sujeito” se torna invisível e o objeto ocupa todo o espaço.

O problema, no final, não é produzir. O problema é quando produzir se converte na única forma legítima de ser. Quando, se essa produção não existe, o sujeito deixa de ter um valor real na sociedade em que vivemos. E talvez a resistência mais séria não seja um gesto grandiloquente, mas recuperar espaços em que o sujeito não precise se justificar e em que a arte não tenha de enfrentar condições impossíveis para 90% da sociedade para existir. Porque uma sociedade pode sobreviver sem muitas coisas, mas quando deixa de produzir interioridade, deixamos de lado o nosso futuro.

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