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Leia “Quando o seguro vira luxo”, por Emilio Moreno Plascencia

Leia o novo artigo do colunista mexicano no “Finanças para todos”.
Publicado em Finança para todos
Data de publicação: 11/02/2026 10:21
Última atualização: 11/02/2026 10:21
Imagem ilustrativa/Reprodução.
Imagem ilustrativa/Reprodução.

Há um momento na vida adulta que pode nos dizer mais do que um gráfico. Chega uma carta, ou um e-mail, com a renovação do seguro da casa. A gente abre sem expectativa, como quem paga o de sempre, e de repente se depara com um número que foge completamente do normal. O prêmio subiu e aparece uma letra miúda que antes não estava lá. Não é algo grave, de vida ou morte, mas é uma curiosidade nova. Quando uma família começa a se perguntar se, de fato, um seguro é tão necessário assim, a economia vai dando passos ruins aos poucos.

Um seguro, visto sem tecnicismos, é um pacto para que uma perda grande não destrua uma vida. Você paga algo pequeno, recorrente, para não pagar algo gigantesco de uma vez. Isso parece simples e, justamente por isso, é poderoso. Não é um luxo; é mais uma ferramenta que torna possível comprar uma casa, financiá-la, construir, investir etc. No fim, o seguro é uma segurança de estabilidade: não vai evitar uma catástrofe, mas pode evitar que você fique sem um centavo.

O que muita gente não percebe é que o seguro não protege apenas quem o compra; ele sustenta um sistema inteiro. Um financiamento imobiliário não existe no vazio. O banco empresta porque há um mecanismo que reduz o risco de um evento destruir a garantia. Sem apólice, a casa deixa de ser um ativo financiável para virar um risco puro. Por isso, quando o seguro encarece ou fica difícil de conseguir, não é apenas prejudicial ao consumidor; também é um freio para a economia em geral. Não por falta de desejo de compra, mas porque começam a faltar as condições para fazer isso com normalidade.

E é aí que o tema fica cotidiano. Um prêmio mais alto não aparece como inflação no discurso, mas aparece na conta bancária. Não sai literalmente no recibo do supermercado, mas reduz o mesmo rendimento disponível. Obriga você a ajustar a vida para conseguir encaixar as contas; muitas vezes isso significa menos poupança, menos margem para conquistar uma casa e, em resumo, menos dinheiro para você e mais dinheiro para se assegurar. Muitas vezes esse é o jogo da economia: ela nem sempre aperta de uma vez, com toda a pressão; muitas vezes é algo mais progressivo, com pequenas faturas a cada ano que se tornam inevitáveis de pagar.

Nos últimos anos, esse tipo de fatura começou a mudar de natureza em vários lugares. Não só sobe o preço do seguro; o sentido dele também muda. Surgem exclusões, franquias mais altas, condições mais rígidas. E quando essas coberturas começam a ser parciais, a tranquilidade do cidadão é afetada. As pessoas continuam pagando, mas passam a sentir que pagam por algo que talvez não responda quando chegar a hora. Essa sensação, que é emocional, acaba sendo financeira. Porque confiança é um ativo e, quando essa confiança se desgasta, o comportamento muda: compras são adiadas, investimentos são evitados, busca-se aluguel, migra-se, reduz-se exposição. Em outras palavras, o custo do risco vira uma força que reorganiza decisões.

As economias modernas foram construídas sobre a ideia de que o risco podia ser administrado. Não eliminado, administrado. O seguro é uma das formas mais antigas e mais complexas dessa administração. Ele permite que as pessoas se atrevan a construir patrimônio sem viver com um medo constante de perder tudo por um evento que não controlavam. Quando esse mecanismo se enfraquece, muda não apenas um setor; muda a textura completa da vida econômica. O futuro fica mais caro de financiar.

E é justamente aqui que desnudamos o verdadeiro problema: quando o seguro deixa de ser um ativo acessível, a sociedade começa a se dividir. Quem pode pagar se protege. Quem não pode pagar faz algo que parece uma escolha, mas na verdade é uma obrigação: fica exposto. Vive sem cobertura, ou com uma cobertura mínima que não dá para reconstruir. E quando o evento acontece, a perda já não é só material; é uma queda de mobilidade. As pessoas retrocedem anos em uma semana. Essa é uma forma de desigualdade que não se discute tanto porque não tem a fama da bolsa, mas é mais decisiva, porque define quem consegue se recuperar e quem retrocede cinco ou dez anos de trabalho e esforço em um acontecimento.

O risco já não é apenas “provável” ou “improvável”, como nos manuais. Em muitos lugares, ele ficou mais irregular, mais frequente ou mais caro. Isso faz com que as seguradoras e, sobretudo, quem assegura as seguradoras, fiquem mais exigentes. E quando quem está lá em cima impõe condições exigentes, normalmente isso impacta o lado oposto, embaixo. Chega ao lar, ao pequeno negócio, ao agricultor, ao construtor. Chega como um prêmio que sobe, como uma apólice que já não é renovada, como uma franquia que transforma o seguro em algo que só serve para catástrofes. É assim que um fenômeno grande vira uma experiência desigual.

E se o seguro começar a se comportar como uma taxa extra para viver em certos lugares, uma espécie de imposto privado sobre o risco que se paga todo ano, sem debate e sem alternativa? E se essa taxa subir tanto que as pessoas se vejam obrigadas a decidir não onde querem viver, mas onde ainda podem continuar protegidas? Nesse mundo, não é preciso uma crise de escala mundial. A crise pode ser lenta. Ela se manifesta como migração silenciosa, como bairros que ficam mais caros para existir, como mercados imobiliários que mudam de lógica, como projetos que já não se financiam, como governos locais pressionados a cobrir perdas que antes eram cobertas pelo mercado.

A leitura dos atores-chave revela contradições que explicam por que isso não se resolve apenas com vontade. As autoridades querem proteger o consumidor, mas se freiam demais os preços, podem empurrar as seguradoras para fora. As seguradoras dizem que só estão refletindo o risco e, muitas vezes, isso é verdade, mas a retirada delas transforma o problema em social. Os bancos precisam de apólices para emprestar, mas quando as apólices ficam caras, inevitavelmente o crédito vira excludente sem que ninguém o declare. E a cidadania, que só quer estabilidade, fica presa em uma discussão em que a estabilidade virou uma despesa mensal obrigatória.

Não se trata de anunciar que “a crise vem aí” como se tivesse uma data exata. O seguro é uma peça invisível e fundamental do sistema e, quando essa peça fica mais cara, o sistema pode ficar mais frágil, mesmo que as bolsas continuem abertas. Não precisamos necessariamente de uma quebra para sentir uma mudança de rumo; basta que o que é normal se transforme em algo difícil de sustentar.

Devemos abrir nossa visão e deixar de ver os mercados como simples números, e passar a vê-los como o que são: cifras que impactam o cotidiano da nossa sociedade, cifras que decidem quem pode viver tranquilo em uma propriedade e quem não pode, quem come e quem não come, quem pode levar a família de férias. Não são apenas números, são pessoas. O mais sensato não é discutir se o problema já é uma crise. O mais sensato é entender que a economia também se rompe quando a proteção deixa de ser algo possível.

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