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“A fascinante arte de amar”: leia mais um conto inédito de Roberto dos Santos

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Por JornalVozAtiva.com Publicado em 30/10/2023, 11:28 - Atualizado em 30/10/2023, 11:30
A escrita de Roberto dos Santos, colunista cativo do JVA, transita entre a prosa, o conto e a crônica. Crédito — Arquivo pessoal. Siga no Google News

Ruben disse para Nívea num encontro casual que ela era linda, ela ficou desconsertada e agradeceu as palavras a ela dirigidas. O que ela não ficou sabendo foi o que sua reação provocou em Ruben, um sentimento que ele nem imaginava o que era, apenas sabia que era uma sensação muito gostosa.

O que exatamente desencadeou essa admiração por parte dele foi a simplicidade explícita na reação desconsertada de Nívea que diante das palavras afáveis de Ruben deu um sorriso nunca percebido por ele. Um sorriso bonito aliado a uma entrega sutil que a fez pender levemente a cabeça para baixo em sinal de aceitação e graciosa introversão.

Nasceu naquele encontro um amor mútuo que não foi percebido instantaneamente, ambos ansiavam pelo outro, mas conservaram no silêncio de seus corações esse desejo incessante um do outro.

Um silêncio respeitador, comedido, discreto, moderado, de jeito que ambos tinham uma chama ardente a fumegar dentro de si, dominada pelos pensamentos tácitos que ocupavam suas cabeças.

Ruben permaneceu no silêncio, porém não estático, seus pensamentos lépidos o levaram a escrever cartas de amor a Nívea. Mesmo pensando que era um ato antiquado essa coisa de escrever cartas de amor, ele seguiu com sua ideia de cortejar a mulher que do seu pensamento não saia. Passava na porta da casa dela pela manhã para buscar pão na padaria e colocava o envelope contendo sua carta numa fresta de tijolo ao lado de um portão. No primeiro dia ele colocou a carta bateu na porta entrou no carro e saiu rapidamente. Nos outros dias ele colocava e deixava lá, os dias que seguiram ele já não ia mais de carro, pois gostava de andar pela manhã e aproveitava para ir buscar o pão a pé. O dia que foi de carro era uma medida estratégica para não ser surpreendido.

No terceiro dia quando ele colocou a carta para ela, encontrou um envelope que Nívea havia deixado para ele. Essa carta havia os seguintes dizeres:

— Por que não optou pelas redes sociais ao invés de escrever as cartas? Mas quero que saiba que estou amando as cartas. Sinto as palavras trêmulas como que escritas com certo nervosismo e sentimento. Gosto das palavras lindas que você se refere a mim, mesmo eu não me achando tudo isso.

Ruben ficou profundamente feliz e preparou sua melhor carta para deixar em resposta a dela. E escreveu:

— Você é tão linda, e não precisa fazer força para ser assim. Eu não tenho uma explicação para dizer de você senão que te vejo e o encanto me toma.

A noite fico olhando para o céu azul e te procurando entre as estrelas, sonho durante a noite com você dormindo e eu te acariciando os cabelos. De dia sonho acordado.

O vento sopra seu nome suavemente aos meus ouvidos, fecho os olhos e sua imagem se forma nitidamente a minha frente. O sol que clareia meus dias tem seu brilho. Você está em cada minuto da minha vida.

Na manhã seguinte Ruben colocou a carta no lugar de sempre e aguardou a resposta. Sabia que ela o responderia.

Fez um propósito de só escrever outra carta quando obtivesse a resposta, pois sabia que cedo ou tarde a resposta viria. No dia seguinte passou em frente à casa dela como fazia costumeiramente para buscar pão, e dessa vez ele não levou carta alguma. Estava firme no seu objetivo que era esperar da parte de Nivea os comentários acerca dos seus últimos escritos.

Ao passar perto da casa dela não tinha nada lá, ficou um pouco decepcionado, mas pensou positivamente se enchendo de esperança em encontrar no dia seguinte a tão esperada carta.

Comprou o pão e voltou para casa caminhando lentamente. Quando passou de novo perto da casa dela, olhou entristecido para a fenda do tijolo ao lado do portão da casa dela na esperança de que naquele tempo entre sua ida e volta da padaria, Nivea tenha deixado algo no lugar de sempre. E para surpresa dele tinha um envelope não notado antes. Ela havia colocado depois da sua passagem, talvez por prudência ou mero acaso mesmo.

Foi até lá conferir sabendo que aquele lugar era o espaço de comunicação dos dois. Chegou na fenda do tijolo e constatou que era uma carta deixada por Nívea. Como era manhãzinha a rua estava vazia, como sempre. Já de posse do envelope, com todo carinho e cuidado, Ruben seguiu para casa e lá começou a ler.

Na carta Nívea escreveu:

— Na noite passada eu não consegui dormir. Suas palavras me tocaram tanto a ponto de me sentir a mulher mais linda do mundo, você me fez sentir assim.

Preciso muito encontrar com você, não consigo mais olhar suas lindas palavras e chorar como sempre acontece comigo, gostaria que fôssemos para além das palavras. Imagino o som da sua voz dizendo tudo isso ao pé do ouvido e ao mesmo tempo que eu possa fazê-lo.

Acho que me apaixonei por você, foi tão bom receber suas cartas de amor e esperar por elas quase todos dias. Acho que isso é uma forma de namorar sem se encontrar. Ler e tocar nas palavras naquelas folhas de caderno fazia com que eu te sentisse tão real.

Essa foi a última carta que eu coloquei naquele nosso lugar. As próximas palavras quero dizer e ouvir em tom poético como suas palavras naquele singelo papel.

Vamos ver o pôr do sol no adro da igreja das Mercês perto da praça amanhã?

Essas foram as palavras finais lidas por Ruben contidas na última carta deixada por Nívea.

Ela sabia que Ruben estaria de folga do trabalho porque seria doze de outubro o dia seguinte sugerido por ela para verem o pôr do sol.

Embora o tempo estivesse nublado Ruben chegou uma hora antes do pôr do sol e ficou esperando por ela. Sentou no muro de pedra e ficou olhando a cidade. De repente uma voz ecoou suavemente no seu ouvido cumprimentando- o.

A voz dizia:

— Boa tarde para o homem que me escreve lindas cartas.

Afirmação que veio com um lindo sorriso. Ruben não titubeou e respondeu imediatamente:

— Boa Tarde para a minha inspiração, para a mulher mais linda do meu silêncio. Que bom que agora ouço sua voz. Todo o meu ser vibra de emoção, meus olhos não querem mais deixar de te olhar.

Ruben num ato continuo pediu desculpas pela ausência do sol que as nuvens ocultavam no horizonte. Lá pelos lados da rodovia.

Nivea disse a ele calmamente:

— O sol é belo, mas hoje ele foi só um pretexto para eu te encontrar. Mais importante que o brilho do astro rei, é estar com você e senti-lo.

O que seguiu a essa troca de afabilidades foi um abraço repleto de sentimentos dentre os quais o amor sobressaía. O beijo que durou alguns minutos foi a confirmação de tudo que disseram nas cartas, ou seja, o amor também se desdobra no silêncio, é a fascinante arte de amar.

O silêncio foi quebrado com as palavras de Nívea no ouvido de Ruben.

— Você quer namorar comigo? Quer dizer continuar namorando comigo, continuar o que nas cartas de amor já acontecia em nosso inconsciente? Ruben que já estava ensaiando em silêncio o pedido antecipado por Nivea, respondeu:

— Sim. E a abraçou com todo o seu amor.

Ruben disse a Nivea que faria questão de voltar a igreja das Mercês para ver o pôr do sol com ela depois que o tempo melhorasse.

Dois anos e meio depois eles se casaram e voltaram ao adro da igreja das Mercês para ver o sol, ali Nivea revelou estar grávida. Ela e Ruben choraram de alegria tendo apenas a suntuosa igreja e o sol como testemunha. E os dois seguiram juntos rumo a felicidade.

Todos os dias Ruben buscava pão e deixava café pronto para Nivea e na mesa uma mini carta onde escrevia que a amava tanto.

E Nívea fingia dormir só para receber um caloroso beijo antes de Ruben ir apara o trabalho. Ele adorava fazer isso e sabia que ela estava acordada, mas esse mimo ele não negava a ela.

Um Comentário

  1. Nilce dos Santos pedroza 31/10/2023 em 19:08- Responder

    lindo sensacional

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