Falta de políticas sobre o suicídio preocupa especialistas

Participantes de audiência alertam sobre isolamento e uso precoce de álcool e drogas entre as causas do problema.

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Por Tino Ansaloni Publicado em 28/09/2019, 18:01 - Atualizado em 28/09/2019, 18:08
Foto – Audiência fez parte de mobilização da Assembleia em torno da prevenção ao suicídio – Crédito – Luiz Santana

Setembro é o mês dedicado à prevenção ao suicídio. Nesta quarta-feira (25/9/19), a Comissão de Saúde da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) realizou uma audiência pública para debater o assunto, como parte das atividades realizadas em todo o país, no chamado Setembro Amarelo.  

A reunião foi solicitada pelos deputados Charles Santos (PRB) e Professor Cleiton (DC) e pela deputada Celise Laviola (MDB). Dela participaram diversos parlamentares, profissionais de saúde, militares, representantes do Centro de Valorização da Vida (CVV) e até jovens que já passaram por tentativas de auto-extermínio. 

Algumas das afirmações mais contundentes, durante a audiência, vieram do médico psiquiatra Humberto Correa da Silva, presidente da Associação Mineira de Psiquiatria. Para ele, o suicídio é um assunto de saúde pública, mas que tem sido negligenciado no Brasil, onde ainda não há nenhuma estratégia organizada para combater o problema.

Humberto Correa afirmou que a doença mental não tratada ainda é uma das grandes causas do suicídio, mas destacou o aumento crescente desse tipo de morte entre os jovens que não tinham nenhuma doença diagnosticada. Nesses casos, a principal causa seria o acesso, cada vez mais cedo, ao álcool e as drogas, segundo o médico, que lida com prevenção ao suicídio há 30 anos. O psiquiatra criticou o fato de o Brasil ser um dos únicos países onde a "propagando de bebida é liberada na TV, para qualquer criança ver".

Regulação - Ele também alertou sobre a quantidade de conteúdos na internet, "fazendo apologia, instigando, incentivando o suicídio e a automutilação".  O médico fez um apelo aos legisladores estaduais, para que fiquem atentos e ajudem a criar um marco legal para coibir esse tipo de coisa em páginas da internet e redes sociais.

O deputado Alencar da Silveira Jr. (PDT) e o presidente da Comissão de Saúde, deputado Carlos Pimenta (PDT), também reforçaram a ideia de que é preciso regular o conteúdo a que crianças e adolescentes têm acesso. Enfático, Alencar da Silveria disse: "O governo vai ter que tomar uma providência urgente. Tem gente se cortando na frente das câmeras e dizendo para o seu filho 'quero ver você se cortar também', na internet".

Isolamento digital e falta de contato interpessoal agrava o problema  

Segundo a técnica da Coordenação Geral de Saúde Mental, Álcool e Drogas do Ministério da Saúde, Leisenir de Oliveira, o número de suicídios no Brasil está aumentando e, possivelmente, ainda há subnotificação dos casos, o que mostra a necessidade de se discutir o assunto e fortalecer a rede de serviços de atenção à saúde, que podem ajudar a prevenir e notificar as tentativas de suicídio. 

O deputado Charles Santos levantou uma outra questão na prevenção ao suicídio: a ajuda ao próximo. "A sociedade está muito individualista, não podemos ficar isolados, dentro de nossas casas, fazendo de conta que nada está acontecendo", alertou. Para o parlamentar, é preciso aprender a perceber os sinais da depressão, principalmente nas pessoas mais próximas, e tentar ajudar.

Para o deputado Carlos Pimenta, os meios digitais isolam e promovem o afastamento dos jovens da família e de Deus. "Nos espaços públicos isso é visível, ninguém olha mais para o outro, todo mundo isolado em seus aparelhos eletrônicos", completou a representante do Ministério da Saúde.

Ajuda - Também participaram da audiência membros do Grupo de Apoio a enlutados por suicídio da UFMG (Gaes), um projeto de extensão da Faculdade de Medicina, criado em 2017. O grupo se reúne semanalmente, na sede da faculdade, na avenida Alfredo Balena, 190, na Capital. Quem quiser obter mais informações ou se inscrever pode entrar em contato pelo e-mail [email protected].

Já o Centro de Valorização da Vida (CVV), uma das entidades que coordenam o Setembro Amarelo, mantém o atendimento 24 horas pelo telefone 188.

Rosas amarelas – Durante a audiência, membros do Rotaract (equipe jovem do Rotary Club) ofereciam rosas amarelas para os presentes. Para "comprar" uma rosa, no entanto, era necessário escrever uma carta, com palavras de incentivo a alguém que esteja passando por um momento difícil na vida. Posteriormente, os jovens distribuirão as cartas e as rosas.

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